Mulheres Surdas e Gênero

Por STELA PERNÉ SANTOS

Resumo:

Esse propõe – se a discutir a temática da surdez, articulando a causa das mulheres surdas essas mulheres também são mães, trabalhadoras e militantes das causas surdas, das causas linguísticas e culturais, tomo por base autores de estudos culturais em educação de surdos a partir da diferença culturalista e História cultural.  Nós mulheres surdas somos maioria na educação de surdos, e nos movimentos de educação de surdos, já somos maioria nas associações.  Essa luta intensifica cada vez mais, a necessidade da pesquisa nessa temática e real.  Como e notória a presença das mulheres no movimento surdo e na educação acredito ser valida essa aproximação de gênero e surdez.


Palavra chave:  gênero , sexualidade, estudos surdos, estudos culturais, mulheres surdas – movimentos surdos.


Propõe me a discutir a essa temática surdez e gênero pois acredito ser oportuna e atual, tendo em vista os estudos culturais e educacionais da surdez e ainda gênero e estudos feministas.  Pois a temática da mulher surda ganha espaço diferente meios sociais, de comunicação.


Tornar visível aquela que fora ocultada foi o grande objetivo das estudiosas feministas desses primeiros tempos. A segregação social e politica a que as mulheres foram historicamente conduzidas tivera como consequência a sua ampla invisibilidade como sujeito – inclusive como sujeito da ciência (Louro, 1997, p. 17).


Os Estudos Culturais modificaram a concepção de “cultura”, portanto define como “campo de luta entre os diferentes grupos sociais em torno da significação” (SILVA,2000, p.32). os estudos surdos tem como aliados teórico os Estudos Culturais, achei a seguinte fala de (SKILIAR , 1998, p. 29 ) muito apropriada a questão, os estudos culturais são :

como um território de investigação educacional e de proposições politicas que,  através de um conjunto de concepções linguísticas culturais, comunitárias e de identidades ….. com conhecimento  e os discursos sobre surdez e sobre o mundo dos surdos.


No que tange as mulheres mais da metade da população mundial de surdos são mulheres, fonte (WDF)1, são eles maioria no professorado, resultado e claro da feminilização do trabalho do educador.


No Brasil a discussão e essencialmente novidade, vale lembra que aproximamos de uma discussão em uma perspectiva pós estruturalista, na qual problematizamos os feminino através da diferença é aqui também amaramos a questão da mulheres e da surdez na diferença e não na discriminação ou no ser inferior, entendemos ambas as discussões como diferença cultural.


A surdez2 e os surdos e surdas sobe a ótica dos estudos culturais compreende a cultura como uma “ um campo de luta entre os diferentes grupos sociais em torno da significação” ( SILVA , 2000, p . 32).  Bem isso significa que os sujeitos surdos seja homem ou mulheres, por sua vez vem a ser um sujeito cultural, que integra uma comunidade surda, marcada por uma experiência visual da língua nossa ,  a língua de sinais.  Está longe da visão médica da doença, da deficiência, está muito distante de correção ou cura, seja médica ou religiosa.  Assim entendemos que a surdez como diferença cultural e linguística a ser respeita.  O surdo e entendido na multiplicidade de marcas nas relações de saber e poder.  Dessa forma caso os estudos feministas e nosso estudo de mulheres surdas “… de uma outra interpretação sobre a alteridade e sobre o significado dos outros no discurso dominante” (SKLIAR, 1998, p. 6).


Em uma tentativa simples tentativa de aproximar gênero/feminismo é surdez pensei em (SCOTT , 1998, p 15). Por gênero me refiro ao discurso da diferença dos sexos.  …. e  tudo o que constitui relações sociais… A diferença sexual não é a causa originária da qual a organização social poderia derivar; ela é antes, uma estrutura social móvel que deve ser analisada nos seus diferentes contextos históricos.


O feminismo de da autora não juga os homens e mulheres oposto uma ao outro, ou ainda de afirmar a existência de uma negando o outro.  Essa diferença sexual não e determinada biologicamente, essa diferença a qual nós referimos e constituída socialmente e culturalmente.  Prova maior que em diferentes regiões e culturas as definições de homem e mulher são diferentes e as regras de comportamento condicionadas aos valores locais.


A missão de questionar, desconstruir, reorganizar e tarefa dos estudos de gênero, abandonando o determinismo natural, da ignorância, do senso comum, que explica a desigualdade entre os sexos de um ponto de vista biológico.


Para falar em gênero, não podemos esquecer de recorremos ao conceito de poder em Foucault, esse autor remete significação ao conceito de poder, esse poder que determina o outro, o fazer do outro, e excluir tudo o que é diferente, ou seja o que não enquadra na normalidade cultural estabelecida.  Esse poder vai além até as praticas cotidianas, corriqueiras dos indivíduos, ainda vai além até onde essas praticas de poder produzem efeitos desconcertantes nas sociedades, em poder de alguns poucos indivíduos.

Surdas e gênero em questão


O passado triste e discriminatório das mulheres surdas e bem semelhante as mulheres ouvinte, pois não si conta de fato as coisas como as são, as surdas também estão as margem da História.


O acesso as mulheres surdas já foi negada nas escolas especializadas em educação de surdos, sem que estas proibições constituíssem um problemas para sociedade em família, que diferença faria um ser surdo e mulher, não receber nenhum tipo de educação.


Não existe registro de mulheres educadoras surdas, na história dos povos surdos. Dos surdos que ingressam na universidade metade grande maioria são mulheres.


A relatos triste de mulheres surdas abusadas sexualmente por ouvintes3, que ficaram impunes devidos a dificuldades de se comunicarem com a família.  A falta de informação também provocou gravidez indesejada, a falta de informação no pré natal, mutila o corpo de mulheres surdas.


Uma jovem surda perto da minha casa, depois de dar a luz, amamentava o bebe em uma mama só, segunda ela o bebe chorava si trocasse de peito, bem, com o desenrolar da tempo ela ficou com um peito menor, de tamanho diferentes (Santos 2011).


O estigma de ser mulher surda associado a incapacidade está presente na fala da surda  Emmanuelle Laborit, O Voo da Gaivota p.199 , quando questionada por jornalistas :” Você vai ter um filho? Resp. sim. Pergunta : você tem medo de que ele seja surdo ou ouvinte? Resp. ele será como quiser. Será meu filho e ponto final”.


Ainda não fala de algumas entrevistadas por Costa Péterson segue: “ quando tive meu filho (ouvinte ) minha sogra quis ficar com ele, não queria que eu cuidasse, dizia que eu não sabia como fazer, como eu ia saber se estava com fome? sede? Dor de barriga?” (Cris 25 anos, mãe surda)

“ queria ser bailarina, gostava de ver minha prima dançado , indo á aula, minha mãe disse, que não poderia dançar, já que não escutava” (Carla, 20 anos).4


Essa falas de mulheres surdas trazem a tona, que ainda a incapacidade esta associada a surdez e a figura feminina, seja no pessoal ou profissional.


A volta por cima das mulheres surdas, a redefinição de papeis sociais.

De menina sapeca

Que transborda beleza

Transformando em menina – moça – mulher.

Despertando em si a mulher surda, guerreira, acima de tudo mulher.

(Shirley Vilhalva)5.


Em 2002 um caso nos Estados unidos chama a atenção do mídia do mundo todo, um casal de lésbicas surdas optou por ter um bebê surdo.  O casal queria que a criança fosse como elas.  E conseguiram o que queria. A escolha de um bebê surdo foi exemplo de inversão de valores, e redefiniu papeis sociais. Apresar de enfrentar duras critica.


Exemplos não param em 2008, a jovem surda Vanessa Vidal6 chama a atenção do Brasil por ser a primeira candidata surda a miss do Brasil . “ é preciso mostrar a sociedade que  somos todos capazes , como as diferenças.  A maior lição e que somos todos capazes de alcançar nossos sonhos” (vidal , 2008).


Nos movimentos surdos a presença feminina e contagiante e animadora. Nas universidade brasileira a presença de mestres e doutoras surdas e um fato real, a frente da coordenação do curso pioneiro Letras – Libras no Brasil e América Latina estava a Doutora Ronice Muller e seguida substituída pela Doutora surda Marianne Stumpf7 até hoje, mostrando ao sociedade o valor da mulher surda. E muitas outra publicam livros e ministram aulas em universidade.


Em Goiás, na Universidade Federal de Goiás a presença feminina e vista no departamento de letras com três professoras surdas efetivas: professora Mestre Thais, Núbia e Renata.  A frente de projeto defendendo e fazendo conhecer nossa comunidade surda.


Também na cidade de Goiânia encontramos a Associação de Mulheres Surdas e Deficiente Auditivas de Goiás8, a frente na informação e auxílio da mulher surda.



Conclusão


Para essas discussões de surdez e gênero chamamos Joan Scott, Foucalt , pois entendemos que pensar em mulher surda e pensar a partir do enfoque biológico, o corpo deficiente, deficiente e incapacitado, por consequência assexuado,  ideias  culturalmente já enraizado, no imaginário popular, cabe a nós quebramos tal estereótipo.


Pensamos no deslocamento de identidade trazendo as discussões de gênero para os estudos surdos, também citado por Moreira (1998).


Esse artigo trabalha gênero e surdez, a partir de uma perspectiva pós – estruturalista e dos estudos Culturais é estudos surdos.  Fica o convite a pesquisadores: vamos pesquisar Surdez e gênero?



Referências

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1981.

KARNOPP, QUADROS, Ronice M. Lingua de sinais Brasileira: Estudos Linguisticos. Porto Alegre , Artemed, 2004.

LABORIT, Emmanuelle. O Vôo da Gaivota. São Paulo: Best Seller, 1994.

LOURO, Guacira L. Gênero, sexualidade e educação. Uma perspectiva pós – estruturalista. Petrópolis: Vozes, 1997.

MOREIRA, Sandra Janetti. A mulher surda e suas relações de gênero e sexualidade. In: SkILIIAR, Carlos . A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre , Mediação, 1998.

SKILIAR, Carlos. A surdez uma olhar sobre a diferenças. Porto Alegre, Mediação, 1998.

SCOTT, Joan. “Genero”  uma categoria útil de analise histórica. In: Revista de educação e realidade. Porto Alegre UFRGS 1990.

VILHALVA, Shirley. O despertar das mulheres surdas no Brasil. 08/03/2005. In: http//www.tvregional.com.br/colunas. Acessado em 07/10/2011.

SACKS, Oliver. Vendo Vozes: uma jornada ao mundo dos surdos. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

SILVA , Tomaz Tadeu da. A politica e a epistemologia do corpo normalizado. In : Revista Espaço, Ines , Rio de Janeiro , 1997.

__________. A Produção social da identidade e da diferença. In: identidade e diferença : a perspectiva dos estudo culturais. Petrópolis, Vozes , 2000.

_________. Teoria Cultural  e educação : um vocábulo critico . Belo Horizonte: Autentica, 2000ª.

WFD – Word Federation of the Deaf . XII World Congress. Viena, 1995 . Atas do Congresso. (Digitado)


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Notas:

1 – WFD – Word federation of the Deaf. A federação mundial dos surdos foi criada em 1951, com sede na Finlândia.


2 – Surdez : A audição e responsável por captar as informações sonoras que nos rodeiam, sejam elas som de palavras ou não. Em termos culturais, surdez é descrita como diferença linguística e identidade cultural, a qual é partilhada entre indivíduos surdos. A surdez é o paradigma da cultura surda, a base sobre a qual se constroi a estrutura e forma da cultura surda, cujo principal elemento espelhador é a Lingua de Sinais, o idioma natural dos surdos. portanto, sem surdez nao há cultura surda. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Surdez)


3 – Ouvinte: Na cultura surda, faz parte do senso comum chamar-se ouvinte àquele que ouve, em contraste com o surdo, que não ouve (total ou parcialmente). http://pt.wikipedia.org/wiki/Ouvinte


4 – Entrevistas filmadas em língua de sinais e depois transcritas para o português.


5 – Poesia em Karnopp e Quadros 2004.


6 – (www. Orkut.com)  “surdos e Libras”(com quase 3000 membros)’’miss surda”.


7 – www.ead.libras.br (Site do Curso Letras – Libras , coordenado pela UFSC)


5 – www. Orkut.com – (AMSDEGO)



STELA PERNÉ SANTOS

Aluna da Disciplina História e Gênero do Curso de Mestrado em História da PUC – GO. Especialista em História Cultural pela PUC – GO e em Formação de Recursos Humanos para a Surdez pela Faculdade Padrão – GO. Graduada em História pela PUC – GO e Letras Libras polo IEF – GO /UFSC.

E-mail: santosstelaperne@hotmail.com