Revista

Edição 02 - 04

PEDAGOGIA TERENA X PEDAGOGIA URBANA: “ O que eu, professor, preciso saber da Pedagogia Terena para atuar no espaço escolar indígena multicultural.”
Por SHIRLEY VILHALVA


Alfabetizar alunos com culturas diferentes é um choque tanto para o professor não índio como para os alunos índios, por não entenderem de imediato o complexo lingüístico da língua um do outro.

Com um professor índio, que tem o domínio da língua terena, este fato não acontece, pois a aprendizagem não será concomitante como seria com o professor não índio, que precisaria de indicações, figuras, desenhos e até mesmo um auxiliar para transmitir a mensagem de uma língua para outra, onde também estaria aprendendo a língua terena, suas especificidades e os alunos aprendendo a língua portuguesa.
 

Não é suficiente conhecer a língua terena para poder atuar eficazmente na escola indígena.  É também necessário conhecer a cultura indígena terena através de observação de vida em comunidade, aceitação da diferença e paciência para inteirar–se nela.
 

Quando o professor não for índio, a presença do monitor ou auxiliar índio adulto é importante para esclarecer aos alunos o que o professor quis dizer e vice-versa.
 

A Pedagogia Terena tem um sistema educativo próprio, abrangendo sem limite de lugar, podendo ser contempladas através das histórias e músicas passadas pelos mais velhos oralmente. É informalmente que observamos a evolução gradual de conviver em grupo.
 

A educação infantil e seu desenvolvimento é organizado pelos pais para que a criança seja independente, com essa conquista ao chegar na fase da adolescência as noções das atividades de conviver em grupo já tem maior esclarecimento e entendimento.
 

A existência do Centro de Reuniões na Comunidade Indígena Terena depende do cacique, quando não existe o Centro de Reunião em determinada Aldeia, as reuniões sempre acontecem em uma escola. É importante que o professor conheça a história do próprio espaço e o que contém, para elaborar assim o seu material pedagógico que dará inicio nas aulas de História.
 

A organização social terena vem alterando antropologicamente e o costume social que prescreve o casamento foi sendo modificado conforme as influências urbanas.
 

Na visão de minoria lingüística existe um conflito inicial de hábito que sofre uma criança repentinamente trancada entre quatro paredes de uma escola com trajetória apenas urbana.
 

A referência é quando vemos que a criança terena tem uma visão tridimensional do mundo que a cerca devido a sua vida livre.
 

Ficaremos atentos, pois tudo em seu comportamento há uma explicação de construção dialógica quanto à questão de língua, cultura e participação real na educação escolar conforme as exigências.
 

A classe de idade pode ser dividida em recém – nascido; infância, juventude, adolescência, adulto e idoso.  Ainda podemos notar as lideranças que estão presentes como: honra; cura e espiritualidade; conselho; guerra ou conflito; unificação pela paz; cultural; divisão interna e externa (referente à vida dentro e fora da aldeia e quando o grupo faz a opção da vida urbana).
 

Notaremos que os alunos terena pensam muito e falam pouco, sem generalizar, só falam quando há oportunidades.
 

As ações são muito importantes e tem um significado especial, muito mais do que as palavras que poderiam ser muitas e sem significados.
 

A autoridade paterna é também vista no papel educativo e disciplinar. A escolha dos padrinhos de preferência irmãos dos pais ou ainda amigos dos pais.
 

A mudança cultural, a vida e a história de cada povo estão em contínuas mudanças e concomitante a ela também mudam as manifestações culturais.
 

Se lembrarmos dos alimentos que se plantavam e tinha o tempo certo para colher e comer, hoje existem os produtos químicos que auxilia plantar-se hoje e colher amanhã, sem critérios que é prejudicial para saúde. Neste sentido, há duas tendências uma que procura codificar a sabedoria e a outra que, procura renovar com influências urbanas.
 

Notas Pedagógicas: Para o Índio há dois tipos de educação:

Educação Indígena e
Educação para o Índio
A primeira consideração dá referência ao seu meio ambiente natural sem interferência.
 

Referência maior é o valor da Língua, hoje no Brasil se conhece a língua indígena e ainda não há Lei que reconhece.
 

O que está faltando?
Porém na situação atual de novas realidades e exigências, a educação indígena não preenche todos os requisitos necessários para os indivíduos e comunidade, para poder sobreviver perante a Pedagogia Urbana. As duas têm que se proceder juntas, completando – se reciprocamente através da História. Enfatizando que seria absurdo colocar um professor que não conhece a fundo a Cultura Terena para ministrar aula sem apoio.
 

A escola precisa ser aberta com o cotidiano da aldeia. O simbolismo da vida da comunidade terena estabelece um equilíbrio de momentos pela ação de visão humana natural, reservada e entendida como um todo e a resistência cultural em contínua mudança. Fazendo dos acontecimentos dados importantes para construção da História.
 

Em pé de braços cruzados é o cumprimento mais primitivo que significa austeridade, poder, respeito e defesa. Se observarmos bem, ainda existe em algumas aldeias essa receptividade. Acrescentando cronologicamente a participação dos terenas na guerra do Paraguai e na Itália, na Segunda Guerra Mundial, da existência da maior aldeia urbana terena do mundo em Campo Grande e de outras participações realizadas pelos próprios terenas.
 

O Professor deverá observar:
Os acontecimentos do dia – a dia da aldeia;
Os mitos, as lendas, os costumes, tudo que pertence a cultura transmitida pela oralidade através dos mais velhos;
O povo terena tem a sua própria cultura, por mais distante que os professores estejam é importante prover de sentimentos, aceitação e aos poucos ir incorporando no seu saber viver terena, que assim haverá progresso no objetivo proposto.
 

Tanto o professor Índio quanto o Professor não índio no espaço da Educação Escolar Indígena deverão compreender e compactuar os valores e assim começar o trabalho pedagógico.
 

Lembrando da diversidade que poderá estar presente em sua sala de aula como os alunos especiais. Para cada aluno devemos ter uma atenção diferenciada quanto a sua especificidade.
 

As necessidades dos alunos são diferenciadas:
Deficiência Visual
Deficiência Auditiva
Deficiência Mental
Deficiência Física
Deficiência Múltipla
Surdocegueira
Distúrbio Neuromotor

O trabalho pedagógico requer muita flexibilidade e criatividade dialógica, sempre reafirmando a importância da cultura existente.
 

A Pedagogia Urbana deve ser introduzida como aprendizagem acrescentada e não de substituição. O ensino deve, portanto ser, adaptado ao acontecimento da vida comunitária terena.
 

Na vida do aluno índio encontramos atitudes contraditória, segundo a lógica racionalista. Muitas situações são encontradas em espaço escolar, por exemplo:
 

Há necessidade de tempo mais longo para construção e elaboração de idéia passada pelo professor não índio e também pode acontecer com o professor índio.
 

É necessário ter proximidade de entendimento e passar de forma que pelo menos um dos alunos entenda e permita que este repasse de forma que os demais compreendam. Será importante que o professor entenda que esta atitude faz parte do processo ensino aprendizagem.
 

O que significa proximidade de entendimento das referências pedagógicas?
Significa quando um aluno líder tem facilidade de captar conhecimentos da cultura urbana, ser bem inteirado na própria cultura quando esse apóia o professor não índio e até mesmo o professor índio.
 

Ao captar a mensagem, retransmitir ou ser porta-voz da mensagem para os demais alunos. Não é um simples tradutor, mas deve ser capaz de, ao receber a mensagem, encaixá-la nos moldes da cultura terena. Varias atividades devem ser discutidas anteriormente entre o professor índio e não índio quando for necessário.
 

A transmissão da mensagem deve ressaltar ao fundamento sem se perder nos particulares. O aluno índio não está treinado a elucubrar, isto é, ele não exprime idéia de: lugar onde está; tempo que algo sucedeu ou em que faz alguma coisa; modo de ser; estado; sentido ou sentimento, o destino ou o fim de uma ação como na percepção racionalizada pelo professor, mas sim intuir (deduzir ou concluir por intuição, ato de ver, perceber, discernir, percepção clara e imediata, pressentimento e presságio).
 

Por isso a mensagem deve brotar da apresentação de um fato. Devemos ter conhecimento e compreensão do modo de pensar em uma visão abstrata. Muita atenção ao jeito de comunicar a mensagem, evitando impor ou forçar a consciência.
 

É importante observar se o professor está ocupando todo o seu tempo explicando as aulas não dando tempo para o aluno elaborar, construir o que esta sendo exposto. É preciso entender que a mesma quantidade de tempo que o professor expõe sua aula deverá ser alternado com a participação dos alunos, colocando – se assim num plano de igualdade e respeito.
 

Não é fácil no inicio provocar um diálogo com os alunos terena, porém é processual o ensino dessa participação dos alunos a comentar com o professor o que está aprendendo.
 

Outro ponto em que a criatividade do professor se manifesta, é no fato de encontrar várias atividades concretas que não somente desperte o interesse e a atenção dos alunos, mas o levem a se conscientizar que o aprender não é simplesmente teórico, mas o que se aprende na escola serve para uso em sua vida cotidiana lá fora.
 

Não adianta teimar no modelo da Pedagogia Urbana. Desde que o professor entre para a Pedagogia Terena ele necessita inserir como se diz o ditado popular “de corpo e alma” na educação indígena buscando o modelo com os mais velhos e ensinando o valor da preservação cultural.

A Escola – O aluno índio não está familiarizado com o papel, a escrita, a leitura, etc., porque essas não são realidades que se encontram comumente na vida cotidiana, nas casas, na aldeia. Por isso deve haver uma verdadeira iniciação para evitar choques culturais.
 

É necessário que oportunize um período de adaptação passando primeiramente ao uso de elementos familiares e conhecidos como folhas, pedras, madeiras, barro, sementes, areias, o que tiver na comunidade em que vivem para aproximação gradativa do papel, fazendo desenhos, construções, modelagens e usando o próprio chão para fazer os primeiros riscos e desenhos.
 

Não adianta insistir com as crianças e sim procurar os adultos de convivência e descobrir o que aconteceu, pois devemos ter o cuidado de não dividir o aluno entre a verdade da aldeia e a verdade do professor, esse é um processo natural que todas as crianças passam.
 

Dificuldades dos professores não índios:
formação cultural;
língua diferente e
falta de conhecimento da cultura Indígena Terena
Facilitador em sala de aula: É necessário que as aulas sejam previamente planejada, se tiver dúvida antes de aplicar recorra a um professor índio ou liderança da comunidade em que está atuando. Se há necessidade, o professor índio poderá permitir que os alunos discutam na sua própria língua determinado conteúdo até o tempo determinado para chegarem numa conclusão. Na sala de aula, o professor não deverá privilegiar o líder ou monitor, isso provocaria distanciamento e diminuiria a eficiência daquilo que ele fizer.
 

Referências:
GIACCARIA, Bartolomeu – Ensaios Pedagogia Xavantes Aprofundamento Antropológico, Missão Salesiana de Mato Grosso – Campo Grande – MS – 1990
VILHALVA, Shirley – Recortes de uma vida: Descobrindo o amanhã _ 2ª ed._ Campo Grande – MS – Gráfica e Papelaria Brasília, 2002
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda,1910 – 1989, Mini Aurélio – séc.XXI – Escolar. 4ª edição – Rio de Janeiro: Nova Fronteira,2000
 

NOTA: Em 2004, este material foi apresentado pela autora, Prof.ª SHIRLEY VILHALVA , em planilhas de PowerPoint, na Palestra de Abertura do Curso de Formação Continuada – PCNs Indígena – Língua e História, CAIC Maria Henriqueta Rebuá Suifi da Cidade de Miranda – MS, e é resultante de pesquisa vivenciada pela própria em busca de informações sobre o atendimento escolar para o Índio Surdo, na Aldeia Xavante em 1990, elaborou o material com apoio de relatórios do autor do livro:  Ensaio Pedagogia Xavantes – Bartolomeu Giaccaria e orientações de Oldir Gonçalves da Aldeia Terena Urbana de Campo Grande –MS, que também participa da Comunidade Surda e é pai de Surdo.  Posteriormente, em 2005, foi publicado pela Editora ARARA AZUL em E-BOOKS (http://www.editora-arara-azul.com.br/Ebooks.php).  Este texto pode ser reproduzido livremente, com fins educacionais, desde que seja citada a autoria e a fonte de consulta (http://www.editora-arara-azul.com.br/revista/).

 


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SHIRLEY VILHALVA é Surda e faz parte da Diretoria da Feneis – Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos. Formada em Pedagogia, atua como Técnica em Assuntos Educacionais no CAS/MS. Também, é Mestranda em Lingüística pela Universidade Federal de Santa Cataria – UFSC e, atualmente, encontra-se realizando pesquisa sobre índios Surdos e faz parte da Diretoria da FENEIS.
E-mail: svilhalva@yahoo.com.br

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