Revista

Edicao 08 - 3

Integração e Comunicação: LIBRAS e sua Cultura, uma Introdução
Integração e Comunicação: LIBRAS e sua Cultura, uma Introdução
Por MARCEL ALCLEANTE ALEXANDRE DE SOUSA


Resumo:
O trabalho procurou abordar o problema da surdez como aspecto de desprezo pela sociedade. Mostrou-se que os surdos são capazes de executar ofícios na sociedade, desde que sejam vistos com respeito e capazes de tais serviços. É preciso integrar estes cidadãos, pois não são inferiores a quem é ouvinte. Chegou-se a conclusão que para os ouvintes é preciso se reeducar, passando, por exemplo, a estudar a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS e abrir espaços para que possam exercer a cidadania como seres humanos normais, pois não são deficientes.

Palavras – chaves: Surdos. Integração. Comunicação. LIBRAS.


1 – Aspectos introdutórios
Pretende-se com este artigo resgatar sucintamente aspectos relevantes da história da comunidade surda. Os pressupostos disso pretendem colaborar no processo de respeito do surdo. Pois, não se trata de uma anomalia, mas de uma realidade a qual o ser humano nasce ou adquire ao longo de sua vida. Nesta perspectiva, pode-se dizer que é incompreensível àquele que diz que estes cidadãos são deficientes. Não se trata de deficiência. Eles na sociedade desempenham um papel muito importante, seja no trabalho, na família ou na comunidade religiosa a qual procuram fazer parte.

Mediante isso, encontram-se os homens e mulheres surdas ante uma sociedade que os vê como ‘coitadinhos’. Espera-se, então, com este trabalho evidenciar o lugar dessas pessoas que devem ser vistas sim, como portadoras de surdez, mas não como inferiores aos ouvintes, por causas deste mesmo fator. A elas deve-se atenção por causa das limitações que a falta dos órgãos auditivos impõe. Nesta circunstância, o ser humano precisa apresentar-se empático a essa realidade. Há momentos que os deixam impossibilitados de responder a altura esperada. Mas, isso não deve ser a causa que os inferiorize, pois o que torna os homens iguais é a razão e não a audição. Nisso, percebe-se que a realidade a qual estão inseridos é homogênica e heterogênica. Homogênica quando enquadram modelos que todos devem seguir para ser um cidadão normal e heterogênico quando usam a inteligência, percebendo, portanto, que uma diferença nos sentidos não desconstrói o homem por completo.

Desse modo, espera-se que antes de se expor os fundamentos que comprovam isso, seja apresentado os pressupostos da surdez, não esquecendo, portanto, os males que a afirmam.


2 – Surdez: problema ou ‘o problema’
Quem é ouvinte pode pensar que não poderá ser um dia surdo. Pelo contrário, há possibilidades de um ouvinte chegar a ser surdo. Fala-se assim, porque o órgão vestíbulo-coclear é o responsável pela audição. Desse modo, está sujeito aos fenômenos externos. Ele está divido em três partes: externa, média e interna(1) . A parte externa tem a função de captar os sons para a parte média. Na parte média do ouvido ocorre a circulação do ar. Nela a pressão, normalmente, deve ser igual, pois o ar determina se haverá possibilidades de se ouvir bem ou não e a interna desempenha o papel de selecionar os sons adequadamente ao funcionamento das células receptoras. A figura apresenta detalhadamente isso.

 

 

Disponível em: 
Acesso em: 10 de maio de 2011.
Fundamentou-se no trabalho de Ana Luisa Miranda Vilela. A audição.

Disponível em: < http://www.afh.bio.br/sentidos/Sentidos3.asp >.
Acesso em: 10 de maio de 2011.

Com essa noção fala-se da surdez a partir de duas perspectivas(2). Uma quando a criança já nasce com esse problema sendo, portanto, consequências de consumo exagerado de drogas por parte da mãe e o outro por ruídos externos. Desse modo, a sociedade atual corre perigo pelas duas causas. Percebe-se que os ruídos externos estão cotidianamente na vida do ser humano. Essa evidência quando não necessária, aparece no imediatismo do homem, que não reflete e usa de todos os meios auditivos para se autosatisfazer. Seja em casa, no trabalho ou na rua, experiência – se isso queira quer sim ou não.

Por isso, é levantada a tese de que atualmente quem não nasceu com a surdez deve ter cuidado, pois tende para ela. O problema está centralizado neste aspecto, ou seja, todos estão sujeitos a isso. Há uma tendência para isso. Assim, como o capitalismo neoliberal responderá a isso? Já que impõe exigências para o trabalho. Nisso defende-se que a comunidade dos surdos deve ser vista como pessoas que precisam de oportunidades para demonstrar suas capacidades, seus talentos. A surdez não pode ser um obstáculo, pois os sinais também são comunicação.


3 – Não são o que pensam que são
Neto (2004: s.p) em seu texto A essência humana na integração organizacional diz que:

Estudos de longa data demonstram que faz parte do convívio social a formação de vínculo afetivo construído inicialmente em casa com os pais. Posteriormente, este modelo de contato é utilizado para as outras relações, em seus vários níveis. Integrar pessoas, portanto, é abrir canais afetivos que comunicam, a todo [o] momento, o que sentimos. No entanto, costumamos, de forma eficaz, bloquear este tesouro das relações humanas. Isto se deve, pelo fato de aprendermos que trabalho é trabalho e vida pessoal é vida pessoal. Em suma, proibimos o que é inevitável e permitimos o que prejudica: o bloqueio, a ruptura (grifo do autor) .

São percebíveis dois aspectos nesta citação, um tratá-se dos laços familiares e outros sociais. Este tem uma característica tecnicista enquanto aquele, afetiva. Ora, estes pressupostos aparecem na sociedade constantemente. O pior é que são vistos como requisitos de uma conduta. Quando a família apresenta alguém, como o surdo, diferente para a vida pública é causa de preconceitos para a maioria da sociedade. A partir disso, são vistos como inferiores, e neste sentido, a linguagem que deveria ser um objeto de comunicação entre os seres humanos, torna-se a causa de exclusão. Percebe-se que além da linguagem verbal, é apresentado nesse momento aspectos não verbais que, para o surdo, é visto como elo que nega o seu ser. Sendo a família a principal responsável pela integração social, percebe-se que ela, também, é a responsável por integrar ao mundo acadêmico, trabalhista e religioso aquele que é mal visto por este fator. Dessa forma, as possibilidades de concordar com Neto quando diz que a integração é abrir caminhos tornou-se maior.

Em vista disso, não se pode pensar que integrar é modificar o jeito de cada ser humano. Pode-se conferir com a seguinte citação que é algo a mais. Ei-la:

Durante muito tempo se pensou que a educação inclusiva consistia em “integrar” meninas ou meninos com algum tipo de “bandicap” na escola, sem que isso significasse nenhum tipo de mudança nesta, e o que é pior ainda, sem que mudasse em nada o pensamento do professorado nem sua prática educativa (MELERO, 2006: 23, grifo do autor)(3).

Essa é uma perspectiva educacional, mas, por dedução, pode ser aplicada a outros públicos, como, por exemplo, aos ambientes de trabalho. A integração é o ponto de partida para um mundo mais justo. Dessa forma, quando se fala de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) não se trata apenas de educar o surdo, mas, também, o ouvinte. Não são apenas gestos, mas sinais, comunicação. Assim, comunicação por comunicação não torna o ser humano superior ao outro. Se assim o for, não há fundamentos para se afirmar que os surdos são doentes, inferiores e impossibilitados.

Ao recorrer à história do silêncio nos mosteiros pode ser notado que um dos principais requisitos que anteciparam a necessidade de comunicação foram os sinais. O trabalho desempenhado na Idade Média, pelos religiosos, acontecia pela disciplina da negação da fala. Isso pode ser conferido a seguir:

Considerando o papel dos mosteiros da Idade Média como centros de cópias de livros clássicos e religiosos, alguns decorados de iluminuras, faz muito sentido que os monges que usavam sinais para se comunicarem silenciosamente no trabalho do campo também tivessem necessidade de criar sinais para as letras do alfabeto, a fim de que os escribas pudessem conferir suas cópias no contexto do scriptorium (REILY, 2007: 314, grifo do autor).

Usa-se este argumento porque os sinais originaram-se com a vida religiosa (4) . Era preciso que houvesse silêncio na vida do monge. O silêncio era visto como uma negação da oralidade (fala). Por meio disso, quer se dizer que os sinais não significavam um desligamento da realidade. Pelo contrário, tinha uma função significativa e, por isso, mesmo respeitando as regras do silêncio, a comunicação feita pelos sinais era praticada, principalmente, nos momentos inoportunos. Desse modo, pode-se perceber que isso não inferiorizava a vida religiosa. Eles, mesmo sem utilizar a fala, se comunicavam uns com os outros. O que deve ser levado em consideração é que se apresentavam atenciosos um para com os outros, pois mesmo sem utilizarem à oralidade havia comunicação. Por isso, negar alguém por causa da fala é desatenção à humanidade de outrem. Eles são capazes e tem as mesmas possibilidades que o ouvinte tem.

Com isso, é preciso ter em mente que quem se apresenta anormal é o ouvinte e para isso é preciso, como afirma Neto (2004: s.p), aprender a se educar para a sociedade. Ele se dirige nestes termos:

Outro ponto vital é a aprendizagem. Cada um aprende de uma maneira. Existem métodos generalistas que agrupam as pessoas e as forçam a aprender por meio daquela estratégia específica. Não há como criar um método para cada ser humano. Todavia, o sucesso está ligado ao fato de nos aprofundarmos em conhecimento sobre o outro e extrair alguns modelos de como se dá o processo de aprendizagem. Para isso, precisamos nos dedicar em ouvir o outro mais atentamente, percebendo a sua totalidade. Como ele pensa e sente. O que o motiva na vida. Como ele percebe as pessoas e coisas que o rodeiam. De que maneira ele constrói o saber internamente (5).

Nesta ideia pode ser encontrada a necessidade de valorizar a diferença de outras pessoas. Assim, a sociedade precisa se conscientizar; é preciso falar uma só língua no Brasil. Não se trata de negar a diversidade linguística que existe, mas passar a compreender que os valores podem ser encontrados em todos e mesmo sem a comunicação verbal, há possibilidades de se construir um país sem preconceitos. Deste modo, seja a LIBRAS ou Tupi – Guarani ou outros há comunicação, mas o problema está na negação da integridade, do respeito.


4 – Um possível conclusão
Os surdos não são deficientes. Eles são capazes de executar os trabalhos que a sociedade oferece. Porém, existe uma classe de cidadãos que pelos recursos capitalistas excluem de imediato o trabalho de alguém que traz consigo a surdez ou a adquiriu. É preciso dar atenção a comunidade surda procurando meios que os ajudem a notar que são seres humanos e que não é a dificuldade comunicativa que põe fim a integração social.

Desse modo, é preciso estudar LIBRAS, abrir espaços para que os surdos possam ter um trabalho, uma família, cursar a faculdade que desejarem etc. É preciso criar laços de amizades, conversar, criar espaços de debates, sabendo, portanto, o que pensam e o que desejam para o bem de todos. Mediante isso, o que se podem fazer, mesmo quando se sabe que eles são capacitados, mas não se põem credibilidade aos mesmos?

1 Fundamentou-se no trabalho de Ana Luisa Miranda Vilela. A audição. Disponível em:
http://www.afh.bio.br/sentidos/Sentidos3.asp >. Acesso em: 10 de maio de 2011.
2 Causas da surdez. Disponível em: < http://www.tuasaude.com/causas-da-surdez/ >. Acesso em: 10
de maio de 2011.
3 NETO. A essência humana na integração organizacional. Disponível em: <http://www.rh.com.br/Portal/Grupo_Equipe/Artigo/3786/a-essencia-humana-na-integracao-organizacional.html#conteudo_base>. Acesso em: 10 de maio de 2011.
4 O monge beneditino Pedro Ponce de León (1520-1584) é reconhecido como o primeiro professor de
surdos, tendo consolidado um trabalho de ensino de filhos surdos da aristocracia espanhola, no mosteiro
beneditino de São Salvador em Oña, segundo Plann (1997), autora de um amplo estudo documental
sobre a educação dos surdos na Espanha (REILY, 2007, p. 320).
5 NETO. A essência humana na integração organizacional. Disponível em: < http://www.rh.com.br/Portal/Grupo_Equipe/Artigo/3786/a-essencia-humana-na-integracao-organizacional.html#conteudo_base >. Acesso em: 10 de maio de 2011.



5 – Referências Bibliográficas
NETO, A. C. S. A essência humana na integração organizacional. RH. 22 de maio de 2004.

Disponível em: http://www.rh.com.br/Portal/Grupo_Equipe/Artigo/3786/a-essencia-humana-na-integracao-organizacional.html#conteudo_base

Acesso em: 10 de maio de 2011.

MELERO, M. L. Escolas inclusivas: o projeto Roma. Ponto de vista: Revista de educação e processos inclusivos. Florianópolis. (UFSC). V. 8, n.8, p. 19-30. 2006.

Disponível em: http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/pontodevista/article/view/1046/1455
Acesso em: 10 de maio de 2011.

REILY, Lucia. O papel da Igreja nos primórdios da educação dos surdos. Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro. V. 12, n. 35 maio/ago, p. 308-326. 2007.

Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v12n35/a11v1235.pdf
Acesso em: 10 de maio de 2011.

 

MARCEL ALCLEANTE ALEXANDRE DE SOUSA

Aluno do Curso de Licenciatura Plena em Filosofia na Universidade Estadual da Paraíba.

Estudante de LIBRAS.

E-mail: marcel.alcleante@gmail.com

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