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Edição 01 - 02

“RE-REFLEXÃO CRÍTICA: SEMINÁRIO PROMOVIDO POR INSTITUIÇÃO OFICIAL DE EDUCAÇÃO EM UM ESTADO DA REGIÃO SUL BRASILEIRA NO ANO DE 2004”
Por ANA REGINA E SOUZA CAMPELLO

 

O presente artigo está fundamentado na disciplina “Estudo da Imagem e Pedagogia Visual” (Doutorado em Educação pela UFSC), a qual utilizou uma base empírica a sua teorização sobre o funcionamento da linguagem imagética e sua semiologia de um modo geral, tal como se diz da Ciência em seu estágio de desenvolvimento: empírico – classificatório e teórico.
 

E, também, contei com contribuições dos estudos da disciplina “Estudos Culturais” do Curso acima citado, que procura “empregar as estratégias tradicionais pelas quais as disciplinas assinalam seus territórios e pelas quais os paradigmas teóricos marcam suas diferenças: reivindicando um domínio particular de objetos, desenvolvendo um conjunto singular de práticas metodológicas, seguindo uma tradição fundadora e utilizando um léxico particular” (NELSON, TREICHLER e GROSSBERG, 2002, p. 8), para ampliar a compreensão sobre este artigo, que estou denominando como “RE-REFLEXÃO CRÍTICA: SEMINÁRIO PROMOVIDO POR INSTITUIÇÃO OFICIAL DE EDUCAÇÃO EM UM ESTADO DA REGIÃO SUL BRASILEIRA NO ANO DE 2004”
 

Trago uma experiência, que apresento em itálico, como fenômeno de significação embasado na Língua de Sinais (LS), incluindo os comentários, com base em teorias de diversos autores, igualmente em itálico, e os esquemas do campo semiológico em alguns dos parágrafos, para melhor entendimento sobre indagações e considerações que faço no decorrer e ao final do texto.
 

Em um SEMINÁRIO, (Sendo este o segundo, pois outro do mesmo porte já havia acontecido anteriormente) promovido por instituição oficial de educação em um estado da região sul brasileira, realizado no dia 15 de outubro de 2004, na sede da instituição promotora do mesmo, em comemoração ao Dia do(a) Professor(a), onde se reuniram várias entidades e associações educacionais e filantrópicas que apóiam a educação dos surdos em geral, com o objetivo de “fomentar, produzir e difundir o conhecimento científico e tecnológico referente à educação especial, definindo e coordenando a implantação da política dessa área no Estado”, aconteceram fatos que serão analisados e comentados com vistas a uma re-reflexão sobre os mesmos a luz da ciência.
 

Compareci a este evento e, também, estavam presentes C. e F., ambas surdas e mestrandas, sendo que F. representava uma entidade reconhecida nacionalmente, na mesa da abertura.  Houve a cerimônia oficial, com o Hino Nacional, interpretado em LS por uma Surda e cantado pelo público.

 

É necessário entender que toda a situação comunicativa tem as funções do signo. Apresento as quatro funções, segundo Guiraud (1973, p.14):

A primeira função: conativa (ou injuntiva), que define as relações entre a mensagem e o receptor, já que toda a comunicação tem por finalidade obter deste último uma reação. Assim sendo pergunto: O público, especificamente a comunidade surda, presenciou e acompanhou o Hino Nacional interpretado por uma Surda?

A segunda função: emotiva, que define as idéias relativas à natureza do referente (função referencial), no momento em que comunicamos por palavras ou por qualquer outro modo de significação. E, diante disto, pergunto: A Surda desempenhou a sua performance com conhecimento da música do Hino Nacional?  Ou foi orientada e seguida por uma professora que regia em sua frente?

A terceira função: poética (ou estética), que define a relação da mensagem que deixa de ser o instrumento da comunicação para passar a ser o seu objeto, a música. Mais uma indagação surge: A Surda demonstrou a expressividade da música e a emoção do “som”?

A quarta função: atenção e participação, cujos receptores que recebem uma mensagem têm que a decifrar (décoder), isto é, reconstituir-lhes o sentido a partir dos signos que comportam os elementos desse sentido, ou sejam indicações concernentes às relações que cada signo mantém com os outros. Finalmente, pergunto: O público se comportou com atenção e participou de modo subjetivo?
O presente trabalho foi realizado com o apoio da CAPES, entidade do Governo Brasileiro voltada para a formação de recursos humanos.
Co-autoria: Beneficiário de auxílio financeiro da CAPES – Brasil.
 

Todos as pessoas citadas terão seus nomes mantidos em sigilo assim como as instituições.

Neste momento, não preciso narrar o “dualismo”: pessoas surdas e pessoas ouvintes, porque seria categorizar e tornar estas denominações de um modo categorizado e obrigatório na leitura. Quero tornar a leitura mais branda e livre, deixando o leitor livre para imaginá-los e observar o posicionamento deste dualismo.
 

O quadrado semiótico (GUIRAUD, 1973, p.29) representa essas relações com o seguinte esquema:

Este quadrado representa os resultados possíveis. São ditos contraditórios quando apresentam os signos de negação: o emissor e o receptor se opõem já que o emissor, por mais que tente manter atenção e participação (com dotação da expressividade de modo inconsciente), sua relação com a sua performance é inexpressível.  Há, então, uma relação de rejeição entre o receptor e o emissor já que, de acordo com esta relação da inexpressividade, começa a desatentar e leva à não-participação na performance do emissor.

Com relação à semiótica visual, a categoria ou a série visual participação X não-participação, atenção X desatenção, expressividade X inexpressividade, emissor X receptor pode mudar, mas, as relações negativas e positivas do quadrado são mantidas, de modo que a partir do signo ou conteúdo disseminado visualmente pode-se determinar de que categoria ou série se trata.  Podemos distinguir, de acordo com a semiótica visual imprimindo as qualidades positivas a um dos termos da categoria e negativas ao outro, que determina, por sua vez, uma direção sensível e/ou rejeição nos termos da categoria.
E no momento em que troca para o Hino Estadual, o palco, onde o Intérprete de LS se posicionava no alto para o público, ficou vazio por um bom tempo; vazio, deturpado e branco, como se não existisse um ser humano para interpretar este hino estadual com uma música “inexistente” (segundo a nossa terminologia por não escutarmos o som da música), tocada ao fundo.  Nós, os Surdos das Comunidades Surdas, de diversos locais (Capital e Municípios do Interior), ficamos “olhando” para o som “invisível” e “inexistente” da música que, insistentemente, era tocada para os nossos “ouvidos”, roucos, surdos e moucos, sem entendermos nada o que pairava no ar…  A apresentadora, uma funcionária voluntária, mostrava com nervosismo procurando, com os seus olhos perdidos, chamar atenção para alguém (os Intérpretes de LS) para que subisse e interpretasse… mas nenhum deles sabia interpretar o Hino Estadual.  Nossos “olhares” perduraram no espaço vazio e eu, para não honrar o Hino Estadual, sem Intérprete de LS, me sentei em protesto, assim como fez C., não sujeitando a descortesia para com os Surdos.

Como diz FOUCAULT, no seu livro “Ordem do Discurso” (2004), de como nos mecanismos de controle, o sujeito age contra a heterogeneidade e imprevisibilidade do discurso.  Vamos citar os três principais mecanismos:

disciplina,
sistema de apropriação de conhecimento e
sociedade de discurso.
Este SEMINÁRIO, voltado para a educação bilíngüe, se constitui na sociedade de discurso, pois os sujeitos pertencentes à sociedade podem “organizar” ou “fazer eventos”, de acordo com os seus determinados assuntos, temas e organizações.  Por sua vez, o discurso produzido por esses sujeitos deve estar nos limites fixados por requisitos ou regras determinados, ou seja, precisam de disciplina. Por fim, os sujeitos se apropriam dos conhecimentos produzidos pela sociedade majoritária e os outros sujeitos que passam por eles, estão sujeitos a aceitar os seus discursos e seus mecanismos determinados, o que constitui o sistema de apropriação de conhecimentos.
O esquema quadrado representa semioticamente as suas relações:

Este esquema representa analogias (os corpos e seres humanos se assemelham e só diferem com a sua acústica sonora e visual) com a sua relação negativa e positiva, como se vêem.  O visual não é vislumbrado para a Comunidade Surda e sua relação é de descortesia.  No caso dos ouvintes, o som “pertencente”, cuja música é direcionada com cortesia e “respeito”, em contraste com a negatividade para com os surdos, sem nenhuma razão aparente.

O evento foi direcionado à festa do Dia do(a) Professor(a) e, também, para prestigiar a apresentação de várias entidades a nível estadual, com os seus trabalhos na educação especial.  Para apresentar um evento a este nível, é necessário, urgentemente, organizar para que todos pudessem sentir com a mesma harmonia, sem prejudicar aos demais, não a minoria, como se denomina a Comunidade Surda, mas com o nível de respeito e de cortesia para com os visitantes, pois vieram cerca de 200 alunos/as das diversas escolas e associações que procuravam, e ainda procuram, desenvolver a educação bilíngüe dos/as surdos/as como explicitava o tema deste SEMINÁRIO. Este foi um dos fatos, que nos provocou maior indignação.

À tarde, apesar da importância dos temas propostos pelo SEMINÁRIO e os representantes das entidades presentes, inclusive Instituições de Ensino Superior, explanarem suas políticas, com o intuito de fomentar, produzir e difundir o conhecimento científico e tecnológico referente à educação especial, permaneceram as dúvidas: Para qual público o evento seria  destinado? Seria destinado aos cerca de 200 crianças e adolescentes surdos/as? Qual a finalidade deles/as estarem ali?  Seria para aprender algo?  Viajariam cerca de dez horas para aprender lição de política da educação especial?  Não teriam onde deixar as crianças e adolescentes surdos/as pois, neste momento, pois as escolas e associações estavam vazias porque os profissionais estavam presentes neste SEMINÁRIO?  Os/as surdos/as adultos/as, indicados/as para palestras, representando suas escolas e associações, têm suas razões para fazer este trabalho, mas questiono: As crianças e adolescentes têm necessidade de comparecerem lá?

Por um lado positivo: Sim! Da nossa parte, é como se fosse um encontro “universal”, um “macrocosmo” da Língua de Sinais (LS).  Culturalmente é uma festa desejada por todos nós, um “encontro surdo-surdo é essencial para a construção da identidade surda, é como um abrir do baú que guarda os adornos que faltam ao personagem” (PERLIN, 1998, p.54). Ansiosos/as para conhecerem outros/as surdos/as, outra comunidade diferente da nossa, culturalmente ou não, mas temos o nosso “comum” de todos/as os/as surdos/as: conhecer, admirar, conversar, aprender, “trocar as figurinhas em sinais”, reaprender ou apropriar-se dos sinais, rejuvenescer a LS enferrujada, por longo tempo, em contato com os professores ouvintes, não usuárias da mesma ou que sinalizam de modo incoerente, os seus “senões”, de forma ranzinza, incompreendidas… O encontro dos/as surdos/as neste SEMINÁRIO foi válido para todos os/as surdos/as poderem conhecer com os/as outros/as surdos/as em um “dia” só!!  Após longos dias sem pensar ou estarem ansiosos/as, de modo inconsciente, para conhecer outras pessoas, já que não podem viajar sozinhos, por serem menores de idade e/ou por serem estudantes carentes.
Por um lado negativo: Não! Os temas apresentados foram inadequados para o nível dos estudantes (crianças e adolescentes), já que estes temas, acredito, não tocaram na “subjetividade” dos/as surdos/as que foram lá, forçados/as, cansados/as e com sono, a observar o/a Intérprete de LS, sem entender!!! Atrás deles/as estavam os “olhares” e “observações” dos professores ouvintes que tomavam conta deles/as, proibindo-os/as de conversar, de verem as mensagens nos celulares, até não os/as deixando “dormir” ou “cochilar”, para que observassem mais e mais a LS que os/as Intérpretes estavam traduzindo para o público. Questiono isso: É necessário ficar “observando” a LS dos/as Intérpretes sem entender um tema que é estranho para o público (crianças e adolescentes)? Será que com estes sinais, aprende-se a comunicar ou desenvolver melhor a LS ou a sua linguagem, já que nas cidades de onde vieram, ainda são rudimentares? O que o SEMINÁRIO preparou para as crianças e adolescentes presentes?
A finalidade e objetividade que o SEMINÁRIO ofereceu às crianças e adolescentes foram nulas.  Que as escolas e associações levem as crianças e adolescentes para entrar em contato com outros surdos, é válido.  Mas reprimir, disciplinar, mandar “observar” e “olhar”, com o intuito de aprender a LS com os Intérpretes de LS não é uma escolha sensata.  Isso não quer dizer que as crianças e adolescentes presentes fossem menos inteligentes, mas sim que os seus “saberes” lhes são fornecidos, cada vez mais, pelos códigos visuais: ciências, história, etc.. e as suas experiências afetivas vão decodificando, tornando-os/as mais individualizados/as, por isso os temas apresentados neste SEMINÁRIO  perderam o seu sentido.  O que interessa, culturalmente, para a comunidade surda, nas experiências pedagógicas visuais nos vários eventos, é organizar estes eventos de acordo com os níveis dos participantes.
GUIRAUD (1973) refere-se a isso em vários trechos:
1) p.24 – “É pela mesma razão que um trabalho muito estritamente programado – o trabalho numa linha de produção ou um ensino dirigido para o exame – perde o seu interesse. Passa-se o mesmo em todas as artes cuja retórica estereotipada torna demasiado evidente a interpretação, e em mensagens altamente codificadas, nas quais a redundância não prende a atenção e o interesse do receptor…”  Na minha concepção, como sujeito surdo, a enunciação parece muito repetitiva e desmotivada, não priorizando a vontade e o uso da mente mais leve, mais fluída. Produtos ou sinais mecanizados cansam e as mensagens visuais, ou signos visuais, são estranhas e as retóricas fora do contexto em que vivem.

2) pág.24 -“Mas esta noção do interesse do receptor tem que ser precisada. A atenção, como se definiu, mede o interesse do receptor pelo referente, objeto da mensagem: interesse de ordem intelectual que tem a sua origem no prazer provocado pela interpretação e pela reconstituição.”  E a atenção deve ser de acordo com o interesse e com a faixa etária dos participantes. Um discurso sobre medicina na platéia dos adolescentes é fastidioso e cansativo onde as enunciações são carregadas de símbolos.  A semântica está fora da realidade do contexto deles. Qualquer sujeito a quem prender atenção é porque tem os seus signos visuais baseados no conhecimento adquirido ao longo tempo de vida e também da convivência e vivência de onde aprendeu e conheceu antes de ingressar ao mundo escolar…

3) pág. 24 – “Muito diferente é o interesse puramente afetivo que o receptor experimenta por estar em comunicação com o emissor, no qual, ao contrário, a atenção intelectual é muito fraca.”.  Como disse BAKHTIN, o interesse é puramente afetivo-volitivo onde os signos visuais estiverem na imagem nos pensamentos dos sujeitos surdos…..

4) pág. 24 – “Esta comunhão entre os participantes adquire enorme importância nas formas coletivas de comunicação: espetáculos, discursos, cerimônias, religiosas, políticas, etc. As cantatas e as danças, as paradas, têm por fim por em uníssono, acertar no mesmo passo, no mesmo ritmo, os seus participantes – tornando secundário o seu conteúdo semântico.  As arengas militares ou políticas contêm pouca informação, e é sem dúvida necessário que assim seja, porque o seu objetivo é reunir os participantes em volta de um chefe ou de uma ideologia comum.”Esta é uma das estratégias da ideologia dominante, onde os dominados são sujeitos ao “assujeitamento” (FOUCAULT)….

5) pág. 25 – “É de fazer a aproximação da comunhão (afetiva) e da colaboração (prática), que se define como a coordenação e a sincronização do trabalho em comum, e que postula igualmente uma codificação e uma socialização em prejuízo do conteúdo informacional das mensagens.” As mensagens visuais, ao longo tempo da vida, são mais conhecidas quando se tem uma sincronização visual em comum (afetiva e prática ao mesmo tempo) e, por isso, os sujeitos surdos aprendem a se conhecerem melhor, sintonizando os signos visuais na sua concepção de vida (do nascimento até a morte)…

6) pág. 25 – “A comunhão e a colaboração postulam o diminuir da atenção, logo relevam de sistemas de codificação antinômicos.”. Sem dúvida alguma, a colaboração afetiva e práticas visuais constroem o seu significado, a representação e a interpretação daquilo que eles, os sujeitos surdos, na sua subjetividade têm em relação com o mundo visual, que é o signo visual, uma das estratégias para superar a falta biológica, que é um dos problemas que passam despercebidos ao longo da sua vida.

Finalizando, não posso deixar de enfatizar que, pessoalmente, nós (eu, C e F.) vimos, no SEMINÁRIO, algo mais grave, que nos fez sentir, com os “corações apertados”, uma enorme frustração: constatamos, com os nossos “olhares”, de repente, uma pessoa surda, inconscientemente ou pressionada, por ser conhecida dentro da Instituição organizadora do evento, obrigada ou de modo (in)voluntário, subiu ao palco para pedir que o público surdo assistisse os/as palestrantes com atenção e respeito, que não atrapalhassem a “fala” dos/as mesmos/as.  E além disto, o que nos deixou mais descontentes, foi a presença de uma professora de idade já avançada e oriunda de uma cidade, cujo nome não me recordo, mas recordo com sinais visuais, assim:

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Esta professora, ao ouvir o “aviso” dado e começou a procurar os seus alunos (adolescentes) que estavam atrás, encontrando um deles conversando com um outro, foi lá para tirar “satisfação”.  Reclamou, dizendo que o aluno devia estar na frente para assistir e “aprender” a LS.  Eu, para defendê-lo, chamei atenção da professora, dizendo que ele sente melhor ficando atrás do que ficar na frente sem entender nada do que os/as palestrantes diziam e com os seus temas difíceis para o entendimento dele.  A professora pegou uma das minhas mãos e me bateu, respondendo rispidamente: “O que você é?  Eu sou professora dele!” Eu, para não ser submissa, após tantos anos, desde meu tempo de criança e adolescente, submetendo-me as “violências educacionais” para aprender a falar e ser comportada, revidei, batendo a mão dela em troca, e respondi com o tom autoritário: “Sou doutoranda!”.  Ela ficou descontente e chamou o aluno para sentar na frente.  Sem hesitação, o aluno foi para frente. Fiquei pensando: Como este tipo de “violência educacional” pode ainda continuar existe na prática para todas as pessoas surdas, mesmo que seja criança, adolescente e adulto/a, assim como aconteceu comigo? Que tipo de cortesia que ela tem para com as pessoas surdas que não conhece, como eu?  Até quando os/as surdos/as continuarão se submetendo a este autoritarismo dos ouvintes (“educadores ?!”) como neste caso? Tal como no passado, repetindo uma triste história, alguns professores continuam com este pensamento não-científico e não-pedagógico, de que os/as surdos/as são “inferiores” e “estigmatizados/as?. 
E as barbaridades contra nós Surdos não param por ai… A grande maioria dos professores de educação especial e os profissionais com um todo, mesmo sem impor castigos corporais aos seus alunos/as, ainda não estão aceitam os/as Surdos/as como seres pensantes e usuários de uma língua própria (LS) pois suas mentes ainda estão fixadas na importância de os/as surdos/as “falarem, treinarem a fala através da articulação”, assim como já vêm no tempo imemorial da história da humanidade.
Como escreve BARBARA WEEDWOOD (2002, p.80): “Os estudiosos ocidentais experimentavam agora aplicar essas categorias as línguas mais familiares. Infelizmente, apesar das detalhadíssimas descrições articulatórias disponíveis em gramáticas do hebraico como as de Agathius Guidacerius (1529) e Augustus Sebastianus Novzenus (1532), a maioria dos gramáticos nunca foi além da rotineira atribuição de cada letra a uma ou outra daquelas categorias.  Em geral, pessoas com uma inclinação mais prática – professores de surdos-mudos (grifo meu), e não gramáticos – é que foram mais a fundo no estudo da articulação”.

De que modo a professora, a cima citada, vê a minha posição de defesa? Doutoranda em educação ou como pessoa surda?  Qual “subjetividade” ela carrega sobre mim? 

Com SILVEIRA (2002), a representação do/a professor/a, nas literaturas infantis e juvenis, vemos: “Gritos, chiliques, acessos de ira (nem um pouco santa…), ordens descabeladas, toques de irracionalidade vão esboçar uma outra faceta freqüente na representação da professora, principalmente da mulher professora.” E acrescenta (pág. 59) …” com a análise na categoria bakhtiniana do “carnavalesco”, PINSENT entende que, através desta “inversão da ordem social de pernas para o ar”, pode se constituir uma certa “válvula de escape” das pressões hierárquicas que, desta maneira, não são subvertidas de fato.”

O resultado: As crianças e adolescentes, com sua razão de ser, desinteressaram, imediatamente, pelas palestras e começaram a dispersar para outros lugares: na arquibancada, atrás do palco, e começaram a conversar, despreocupada e entusiasmadamente, com as outras pessoas de outras cidades (que nunca os/as viram), tornando o espaço propício para comunicação entre seus pares …. Foi muito bonito.  Com suas expressões faciais, suas mãos e braços em movimentos rápidos ou vagarosos (é óbvio, procurando entender), ora rindo, ora admirando, ora indagando, ora “fuxicando”, ora contando as novidades, ora também para “paquerar”, como todos os seres humanos…. Foi como se estivessem enfeitiçados/as pelo encantamento com o contato com os outros surdos… a nossa “visão” parecia estar no paraíso do “Jardim de Éden”….

A sugestão: Propomos, para tornar o evento mais agradável de modo que os/as surdos/as levassem a lembrança dos “sinais” apreendidos e/ ou apropriados, a formação de grupos ou oficinas com vários temas educativos e culturais da própria comunidade surda, que poderiam ser oferecidas para qualquer público (crianças e adolescentes), tais como: “Brincando com as palavras da língua portuguesa”, “Como ser Líder da Comunidade Surda”, “Brincando com Classificação”, “Poesia em Configurações de Mãos”, “Como Declamar com a Configuração de Mãos”, “Sinalizando para a Vida” e muitos outros temas sugestivos para chamar atenção do que é importante aos/as surdos/as, com entretenimento e diversão, porque assim aprendem e apropriam-se mais e mais, ao observarem as “nuances” e a “expressividade” da nossa LS e nossa cultura.

A conclusão: Observamos que os pontos negativos são mais abrangentes do que os pontos positivos.  É fácil notar que a Comunidade Surda, dependendo dos eventos, não se interessa em participar destes, como aconteceu no SEMINÁRIO por seus temas serem incompatíveis e estarem em desarmonia com os signos e códigos apreendidos e assimilados por esta comunidade, porque a pedagogia utilizada hoje em dia continua atrelada na oralização.  Não pretendo comparar com as crianças e adolescentes ouvintes, mas, de um modo geral, esse desinteresse acontece, sobretudo com a comunidade surda, que suporta e obedece a hierarquia para participar sem nenhuma reflexão crítica ou de modo esclarecedor e positivo. Mais uma vez enfatizo que não são com os/as Intérpretes de LS que se aprende “sinais”, assim como muitos pensam e nos rotulam nas denominações politicamente incorretas de que os/as surdos/as têm má vontade para participar de evento, como aconteceu.

Finalizando, acreditamos que os comentários e sugestões supra mencionados poderão contribuir para a compreensão e alerta de que, no futuro (ainda que estejamos no século vinte e um!), tornem os eventos ou outras formas de organizações mais agradáveis e objetivas para a comunidade surda, respeitando nossa individualidade e coletividade surda, de acordo com o nosso microcosmo e a nossa cultura.
 

Referências Bibliográficas:
FOUCAULT, Michel. Ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola. 2004. Leituras filosóficas. 10 ed.
GUIRAUD, Pierre. A Semiologia. Lisboa: Editorial Presença, 1973.
PIETROFORTE, Antonio Vieira. Semótica Visual; os percussores do olhar. São Paulo: Contexto, 2004.
SILVA, Tomaz Tadeu da (org). Alienígenas na sala de aula. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. (Coleção de Estudos Culturais em Educação)
SILVEIRA, Rosa Maria Hessel (org.). Professoras que as histórias nos contam. Rio de Janeiro, DP& A, 2002.
SKLIAR, Carlos (org.). A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre; Mediação, 1998.

 

 

WEEDWOOD, Barbara. História concisa da lingüística. São Paulo: Parabola. 2002.CAMPELLO, ANA REGINA E SOUZA é Surda, professora e bibliotecária e ex-Presidente da Feneis – Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos. Também, é estudante de Doutorado em Educação pela UFSC e Bolsista financiada pela CAPES–MEC, tendo enviado este artigo por e-mail pois encontra-se nos EUA (Gallaudet University) realizando pesquisas para conclusão de seu Curso de Doutorado.

E-mail: anaregina@uol.com.br

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