Revista

Edição 01 - 05

Seminário “Povo Kinikinau: Persistindo a Resistência”
Bonito – MS, 16 a 18 de junho de 2004
 

Kinikinau: Valorizando a História e a Pedagogia de um Povo

Por SHIRLEY VILHALVA
E-mail: svilhalva@yahoo.com.br
 

“O que eu professor preciso saber da História e Pedagogia Kinikinau
para atuar no espaço escolar indígena multicultural.”
 

A História

É fundamental conhecer, através da linha do tempo, a história do Povo Kinikinau.
Registros encontrados mostram que o povo Kinikinau vem de um único subgrupo remanescente da nação Guaná e pertencendo ao tronco lingüístico Aruak ou Aruaque.

A nação Guaná (também chamada pelos cronistas de Xané), era composta pelos povos Layana, Kinikinau, Exoaladi e Etelenoe, hoje todos reconhecidos sob a identidade genérica do Terena.
Aruaque, segundo o dicionário: Aruaque Bras. S2g. 1 Etnôn. Indivíduo dos aruaques, designação comum a diversos povos distribuídos por vários estados do Brasil. Sm.2. Gloss. Família de línguas andino-equatoriais, faladas por povos indígenas no AM, MT, MS e RR, e ainda na Guiana, Guiana Francesa, Suriname, Bolívia e Peru. * aruaque adj2g. (Mini Aurélio 2001).

Os primeiros habitantes, onde hoje é o Brasil, chegaram entre 12 e 30 mil anos atrás. Antes da chegada dos Europeus (portugueses) viviam aqui quatro grandes grupos de povos divididos assim:
Tupi: Primeiros índios a entrar em contato com europeus, viviam em todo litoral.
Jê: Ocupavam o planalto central.

Karib: Ocupavam a região setentrional da A. do Sul e, no Brasil, a região amazônica.
Arauaque: Ocupavam a região oeste do país e o extremo norte da Amazônia.
Até hoje foram catalogadas mais de 170 línguas faladas pelos índios brasileiros, divididas em quatro grandes grupos:
Tupi-guarani:Empregado por tribos distribuídas em vasta faixa entre Amazonas e RS;
Jê: Concentrado na bacia do Araguaia-Tocantins;
Karib: Encontrado no Mato Grosso e norte do Amazonas;
Arauaque: Dominante na região do Pantanal e oeste do Amazonas. O cálculo do número de habitantes do território, no ano de 1.500, varia muito: de 1 milhão a 8,5 milhões de pessoas.
Um critério muito usado para classificar os indígenas é agrupá-los de acordo com a língua que falam. As línguas são grupadas em famílias; e estas, em troncos.
Existem três troncos principais conhecidos:
Tupi: – 8 famílias e 26 línguas
Macro – Jê: – 5 famílias e 16 línguas
Aruaque: – 2 famílias e 13 línguas
 

A Educação

Difundir o ensino básico para alunos com culturas diferentes, é um conflito tanto para o professor não índio, como para os alunos índios, por não entenderem de imediato o complexo lingüístico da língua e da cultura um do outro. Com a presença do professor índio Kinikinau, que tem o domínio da língua falada, este fato não acontece, pois a aprendizagem não será concomitante como seria com o professor não índio, que precisaria de indicações, figuras, desenhos e até mesmo um auxiliar para transmitir a mensagem de uma língua para outra, onde também estaria aprendendo a Língua de seus alunos, suas especificidades e os alunos aprendendo a Língua Portuguesa.

Não é suficiente conhecer a Língua falada pelos alunos Kinikinau para poder atuar eficazmente na escola indígena. É também necessário conhecer a Cultura Indígena que será propiciada através de observação da vida em comunidade, aceitação da diferença em relação aos mitos e ao equilíbrio com a natureza, arte e ter paciência para inteirar – se nela.

Entender que os índios Kinikinau são, historicamente, reconhecidos como índios laboriosos, grandes agricultores que elevam a importância da terra, que através do trabalho tem suas realizações maiores e a convivência com o ciclo da natureza se torna o ciclo da vida. A água flui diversas importâncias, sendo assim há diversos significados mitológicos.

Há mitos para água, para chuva, para o plantio, para o uso diário e higiene, etc. Sendo assim, a natureza ocupa o tempo maior de sua cognição ficando complexa uma elucubração pedagógica distante do que se acredita.

A comunidade dá crédito para liderança de pequenos grupos para resolver as questões surgidas, ou seja, os problemas são resolvidos em pequenos grupos e assim passados para os demais.
A arte da educação e do ensino é transmitida de uma geração para outra, por meio de histórias sobre a origem do mundo, o cultivo das plantas e as regras sociais. O momento em que se contam essas histórias transforma em uma ocasião especial, preparada com muito cuidado e na qual vai ser difundida por toda a tribo.

A existência do Centro de Reuniões na Comunidade Indígena depende do Cacique, quando não existe o Centro de Reunião em determinada Aldeia, as reuniões sempre acontecem em uma escola. É importante que o professor conheça a história do próprio espaço e o que contém, para elaborar assim o seu material pedagógico que dará inicio nas aulas de História.

A organização social Kinikinau foi se alterando antropologicamente e o costume social que prescreve o casamento foi sendo modificado conforme as influências do grupo que se agregaram como também das influências urbanas.

Na visão de minoria lingüística, existe um conflito inicial de hábitos e sofrimento, quando uma criança, repentinamente, é trancada entre quatro paredes de uma escola com trajetória apenas urbana.
E, a confirmação deste fato, ocorre quando vemos que a criança Kinikinau tem uma visão tridimensional do mundo que a cerca devido a sua vida livre.

Precisamos ficar atentos, pois em tudo, de seu comportamento, há uma explicação de construção dialógica quanto a questão de língua, cultura e participação real na educação escolar, conforme as exigências.

A Classe de idade pode ser dividida em recém – nascido; infância, juventude, adolescência, adulto e idoso.

Ainda podemos notar as lideranças que estão presentes como: honra; cura e espiritualidade; conselho; guerra ou conflito; unificação pela paz; cultural; divisão interna e externa (referente a vida dentro e fora da aldeia, quando o grupo faz a opção da vida urbana).

Notaremos que os alunos Kinikinau sem generalizar, só falam quando há oportunidades ou se sentem confiantes.

As ações são muito importantes e tem um significado especial, muito mais do que as palavras que poderiam ser muitas e sem significados.

A mudança cultural, a vida e a história de cada povo estão em contínuas transformação e concomitante a ela também mudam as manifestações culturais. Com a proximidade com a cultura dos Terena e Guaná, os Kinikinau interagem somando, adquirindo e contribuindo para o desenvolvimento multicultural.
 

Notas Pedagógicas:
Para o Índio há dois tipos de educação:
- Educação Indígena e
- Educação para o Índio

A primeira consideração dá referência ao seu meio ambiente natural sem interferência.
Porém, na situação atual, de novas realidades e exigências, a educação indígena não preenche todos os requisitos necessários para os indivíduos e comunidade, para poder sobreviver perante a Pedagogia Urbana.

As duas têm que se proceder juntas, completando – se, reciprocamente, através da História. Enfatizando que seria absurdo colocar um professor que não conhece a Cultura Kinikinau para ministrar aula sem apoio.

Referência maior é o valor da Língua, hoje no Brasil se conhece a Língua Indígena e ainda não há Lei que a reconheça.

Em relação aos Kinikinau, conforme alguns registros, o que encontramos é que o Kinikinau é um dos povos não-reconhecido oficialmente.

Através deste seminário e da presença de Professores Kinikinau poderá ser alterado esse fato histórico.
A escola precisa ser aberta com o cotidiano da aldeia. O simbolismo da vida da comunidade Kinikinau estabelece um equilíbrio de momentos pela ação de visão humana natural, reservada e entendida como um todo e a resistência cultural em contínua mudança. Fazendo dos acontecimentos dados importantes para construção da História.

Em pé de braços cruzados é o cumprimento mais primitivo que significa austeridade, poder, respeito e defesa. Se observarmos bem, ainda existe em algumas aldeias essa receptividade. Acrescentando cronologicamente sobre a importância da Astronomia, caça, pesca, arte, pintura corporal, arte em pedra, traçados, cerâmica, pintura e desenho, música e danças.

O Professor deverá observar:
- Os acontecimentos do dia – a dia da aldeia;
- Os mitos, as lendas, os costumes, tudo que pertence a cultura transmitida pela oralidade através dos mais velhos;
O Kinikinau tem a sua própria cultura, por mais distante que os professores estejam é importante prover de sentimentos, aceitação e aos poucos ir incorporando de forma natural o viver do grupo.
Tanto o Professor Índio quanto o Professor não Índio, no espaço da Educação Escolar Indígena, deverão compreender e compactuar os valores e, assim começar o trabalho pedagógico.
Lembrando da diversidade que poderão estar presente em sua sala de aula como os alunos especiais. Para cada aluno devemos ter uma atenção diferenciada quanto a sua especificidade.
As necessidades dos alunos são diferenciadas:

Deficiência Visual
Deficiência Auditiva
Deficiência Mental
Deficiência Física
Deficiência Múltipla
Surdocegueira
Distúrbio Neuromotor

O trabalho pedagógico requer muita flexibilidade e criatividade dialógica, sempre reafirmando a importância da cultura existente.

A Pedagogia Urbana deve ser introduzida como aprendizagem acrescentada e não de substituição. O ensino deve, portanto ser, adaptado ao acontecimento da vida comunitária do Kinikinau.
Na vida do aluno índio, encontramos atitudes contraditórias, segundo a lógica racionalista. Muitas situações são encontradas em espaço escolar, por exemplo: Há necessidade de tempo mais longo para construção e elaboração de idéia passada pelo professor não índio e também pode acontecer com o professor índio.

É necessário ter proximidade de entendimento e passar de forma que, pelo menos, um dos alunos entenda e permita que este repasse de forma que os demais compreendam. Será importante que o professor entenda que esta atitude faz parte do processo ensino aprendizagem.
O que significa proximidade de entendimento das referências pedagógicas? Significa quando um aluno líder tem facilidade de captar conhecimentos da cultura urbana, ser bem inteirado na própria cultura quando esse apóia o professor não índio e até mesmo o professor índio.

Ao captar a mensagem, retransmitir ou ser porta-voz da mensagem para os demais alunos. Não é um simples tradutor, mas deve ser capaz de, ao receber a mensagem, encaixá-la nos moldes da cultura Kinikinau. Varias atividades devem ser discutidas anteriormente entre o professor índio e não índio quando for necessário.

A transmissão da mensagem deve ressaltar ao fundamento sem se perder nos particulares. O aluno índio que está iniciando a escolaridade não está treinado a elucubrar, isto é, ele não exprime idéia de: lugar onde está; tempo que algo sucedeu ou em que faz alguma coisa; modo de ser; estado; sentido ou sentimento, o destino ou o fim de uma ação falada pelo professor, mas sim, intuir (deduzir ou concluir por intuição, ato de ver, perceber, discernir, percepção clara e imediata, pressentimento e presságio). Por isso a mensagem deve brotar da apresentação de um fato.

É importante observar se o professor está ocupando todo o seu tempo explicando as aulas, não dando tempo para o aluno elaborar, construir o que esta sendo exposto. É preciso entender que a mesma quantidade de tempo que o professor expõe sua aula deverá ser alternada com a participação dos alunos, colocando – se assim num plano de igualdade e respeito.

Não é fácil, no inicio, provocar um diálogo com os alunos Kinikinau, porém é processual o ensino dessa participação dos alunos a comentar com o professor o que está aprendendo.

Outro ponto em que a criatividade do professor se manifesta, é no fato de encontrar várias atividades concretas que não somente desperte o interesse e a atenção dos alunos, mas o levem a se conscientizar que o aprender não é simplesmente teórico, mas o que se aprende na escola serve para uso em sua vida cotidiana lá fora.

Não adianta teimar no modelo da Pedagogia Urbana. Desde que o professor entre para a Pedagogia Kinikinau, ele necessita inserir como se diz o ditado popular “de corpo e alma” na Educação Indígena, buscando o modelo com os mais velhos e ensinando o valor da preservação cultural.
 

A Escola

O aluno índio não está familiarizado com o papel, a escrita, a leitura, etc., porque essas não são realidades que se encontram comumente na vida cotidiana, nas casas, na aldeia. Por isso deve haver uma verdadeira iniciação para evitar choques culturais.

É necessário que oportunize um período de adaptação, passando primeiramente ao uso de elementos familiares e conhecidos como folhas, pedras, madeiras, barro, sementes, areias, o que tiver na comunidade em que vivem para aproximação gradativa do papel, fazendo desenhos, construções, modelagens e usando o próprio chão para fazer os primeiros riscos e desenhos.
Não adianta insistir com as crianças e sim procurar os adultos de convivência e descobrir o que aconteceu, pois devemos ter o cuidado de não dividir o aluno entre a verdade da aldeia e a verdade do professor, esse é um processo natural que todas as crianças passam.

Dificuldades dos professores não Índios:
- formação cultural;
- língua diferente e
- falta de conhecimento da cultura Indígena Kinikinau.

Facilitador em sala de aula: É necessário que as aulas sejam previamente planejada , se tiver dúvida antes de aplicar recorra a um professor índio ou liderança da comunidade em que está atuando.
Se há necessidade, o professor índio poderá permitir que os alunos discutam na sua própria língua determinado conteúdo até o tempo determinado para chegarem numa conclusão. Na sala de aula, o professor não deverá privilegiar o líder ou monitor, isso provocaria distanciamento e diminuiria a eficiência daquilo que ele fizer.
 

REFERÊNCIAS:

ARRUDA, José Jobson de, Toda a História, 6ª edição,Editora Ática- São Paulo – SP,1997.
ADAS, Melhem, 1938 – Geografia da América: aspectos físicos e sociais – São Paulo: Ed.. Moderna, 1982.
CABRAL, Paulo Eduardo, Educação Escolar Indígena em Mato Grosso do Sul, algumas reflexões – Campo Grande – MS, 2002.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda,1910 – 1989, Mini Aurélio – Séc.XXI – Escolar. 4ª edição – Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2000.
GIACCARIA, Bartolomeu – Ensaios Pedagogia Xavantes Aprofundamento Antropológico, Missão Salesiana de Mato Grosso – Campo Grande – MS. 1990.
VILHALVA, Shirley – Recortes de uma vida: Descobrindo o amanhã. 2ª Edição. Campo Grande – MS. Gráfica e Papelaria Brasília, 2002.
VILHALVA, Shirley – PEDAGOGIA TERENA X PEDAGOGIA URBANA: O que eu professor preciso saber da Pedagogia Terena para atuar no espaço escolar indígena multicultural.”, www.editora-arara-azul.com.br – 2004
http://planeta.terra.com.br/arte/mundoantigo/indios/cang2.htm
http://www.abceducatio.com.br/rev_33/editorial/editorial.htm – 08.06.2004 15:50
http://www.deltainformatica.com.br/uniaopre.html
http://www.sbmrj.org.br/page6ptamericas.htm
http://www.sbmrj.org.br/page6ptamericas.htm
Visitado em  08.06.2004 16:11
http://www.geocities.com/TheTropics/Cabana/2578/historia.html – 08.06.2004
http://www.tlfq.ulaval.ca/axl/amsudant/brasil-1demograficos.htm http://www.fb.org.br/link.asp?mod=dic&txt=txt/LkRefBib.txt 
visitado em 11.06.2004 14:51
 

NOTAS: 
a) Este material foi apresentado pela autora, Prof.ªSHIRLEY VILHALVA, em planilhas de PowerPoint, durante o Seminário Povo Kinikinau: Persistindo a Resistência. Bonito – MS, 16 a 18 de junho de 2004.
b) Seguem, em anexo, para conhecimento dos interessados, materiais apresentados no Seminário e/ou resultantes deste:
1) Palestra – Aldeia de Jaguapirú / Escola Municipal Tengatuí Marangatú em 06/05/2003
2) Pesquisa sobre o Vocabulário Kinikinau
3) Histórico do Povo Kinikinau por Professores da UFMS / Unesco e UFMG / Capes
4) Carta de Bonito – Registro dos objetivos do Seminário e das presenças dos que comparecem.
5) Foto de professores Kinininau da Escola Municipal Indígena Ejiwajegi presentes ao Seminário
 

Seminário “Povo Kinikinau: Persistindo a Resistência”
Bonito – MS, 16 a 18 de junho de 2004

Kinikinau: Valorizando a História e a Pedagogia de um Povo

Por SHIRLEY VILHALVA – Surda / Professora
Técnica do CAS/SED/MS
E-mail: svilhalva@yahoo.com.br
 

ANEXO 1:
Palestra realizada na Aldeia de Jaguapirú, na Escola Municipal Tengatuí Marangatú em 06/05/2003, com a participação de 45 professores índios e não índios. Palestra proferida pela professora: Shirley Vilhalva.

Seminário “Povo Kinikinau: Persistindo a Resistência”
Bonito – MS, 16 a 18 de junho de 2004
 

Kinikinau: Valorizando a História e a Pedagogia de um Povo
 

Por SHIRLEY VILHALVA – Surda / Professora
Técnica do CAS/SED/MS
E-mail: svilhalva@yahoo.com.br
 

ANEXO 2:
Foi apresentado em Painel, pelos participantes do Seminário, o seguinte vocabulário Kinikinau, durante dinâmica de valorização da Língua pelo Povo Kinikinau, em Palestra da Profª Shirley Vilhalva com correção dos Professores Kinikinau Rosaldo de Albuquerque Souza e Inácio Roberto:
 

VOCABULÁRIO KINIKINAU

Uhe’ekoti  – Bonito
Honono’iti  hikere – Estrela azul
Ko’eru – Papagaio (ave)
Naranga – Laranja
Tîpe – Veado
Kaimaiti – Feio
Kaliwonó – criança
Weteté – Jacaré
“Tokoró – Bugio
(Awaina) Boke’exa – minha terra
Uko – Chuva
Exoketí – Bonito,belo
Seno – Mulher
Merum – melão
Xané – Gente, pessoa
Enjuâne – Já sei
Kaxé – Sol, dia
Pohuti – um (nº)
Kamóm – Cavalo
Exo’moti –
Sini – Onça
Arunoen – Moça
Owati – Fica
Yãye – Aqui
Owongu – Minha casa
Yowoko – Sua casa
Wowoku – Nossa casa
Owokuti – Casa
Koyuhopeti – Livro
Wanêun – Comprar
Yunzoikuane – Já li
Ne – o
Ûndi – Eu
Îti – Você
Ûti – Nós
Îti  hiko – Vocês
Kurikuá – jogar
Epoiene – Bola
Obs.: Em 13 de julho de 2004, em pesquisa na internet SHIRLEY VILHALVA encontrou:
Vocabulário quiniquinau (Kinikinao/Kinikinau)

alighera    sol / sol / sun
ate    neto / nieto / grandson
helerode    pênis / pene / penis
hionaghy    filho / hijo / son
kewari    lua / luna / moon
oliana    vagina, vulva / vagina, vulva / vagina, vulva
yuwinti    estrela / estrella / star

Fontes: 
Citado por SCHULLER, Rodolph R., in Revista Americana, 1911. [Colaboração de Victor A. Petrucci (ver links).
http://orbita.starmedia.com/~i.n.d.i.o.s/quiniquinau1.htm - Visitado em 13.07.2004 20:15

Seminário “Povo Kinikinau: Persistindo a Resistência”
Bonito – MS, 16 a 18 de junho de 2004
 

Kinikinau: Valorizando a História e a Pedagogia de um Povo
 

Por SHIRLEY VILHALVA - Surda / Professora
Técnica do CAS/SED/MS
E-mail: svilhalva@yahoo.com.br
 

ANEXO 3:
O texto histórico abaixo faz parte do Relatório do Seminário Povo Kinikinau da Gestão Educação Escolar Indígena da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul sob a Coordenação da Professora Miriam Moreira Alves e do Gestor Alcery Marques Gabriel.
 

OS KINIKINAU EM MATO GROSSO E EM MATO GROSSO DO SUL: (IN)VISIBILIDADE DE UM GRUPO INDÍGENA
 

Prof. Esp. e Mestrando Giovani José da Silva – UFMS e Unesco
Prof. Esp. e Mestrando José Luiz de Souza – UFMG e Capes
 

Paresi, Xané e Guaná, os dois últimos, subdivisões de um mesmo grupo, representam a migração meridional dos Aruak pela Bacia do rio Paraguai. Os territórios tradicionalmente ocupados pelos grupos Guaná localizavam-se em áreas distintas, que iam desde a margem esquerda do baixo rio Apa até a área acima do rio Negro. Após a chegada dos ibéricos à região, as migrações do grupo se deram no sentido leste. As primeiras informações sobre os Guaná referem-se ao alto desenvolvimento da agricultura e da enorme quantidade de roças de milho que plantavam. Através da leitura crítica de textos produzidos por cronistas e exploradores do período colonial brasileiro, podemos inferir que quatro foram os subgrupos Guaná a atravessarem o rio Paraguai, passando para suas margens orientais: Exoaladi, Terena, Layana e Kinikinau. Destes, apenas os primeiros não apresentam, até o momento, remanescentes no atual território sul-mato-grossense.

Esses grupos teriam atravessado o rio Paraguai em ondas sucessivas a partir da segunda metade do século XVIII, instalando-se na região banhada pelo rio Miranda entre os paralelos 19o e 21o de Latitude Sul, onde foram encontrados pelos viajantes do século XIX.

Os escritos de João Henrique Elliot, Augusto Leverger e Joaquim Alves Ferreira, produzidos na década de 1840, revelam o expressivo papel desempenhado pelos Layana, os Exoaladi (também chamados de Guaná, o que gera certa confusão) e os Kinikinau na economia regional do sul de Mato Grosso. No Relatório da Diretoria Geral dos Índios de 1872, Francisco José Cardoso Júnior revelou que existiam cerca de mil Kinikinau dispersos por Albuquerque e Miranda, cujas características eram a de serem exímios agricultores e de alugarem seus serviços aos não-índios (apud VASCONCELOS, 1999: 96-97). Embora imprecisos, os dados fornecidos pelo diretor revelam um grupo numericamente significativo mesmo após a Guerra do Paraguai. Enquanto os Layana viviam agregados em fazendas, os Exoaladi e os Kinikinau abasteciam de víveres a população da região. Os três subgrupos Guaná tiveram, segundo o Visconde de Taunay, participação na Guerra do Paraguai:

guanás, kinikináus e layanos ultimamente se uniram com a população fugitiva (de Miranda, rumo à Serra do Maracaju); [...]. Foram os kinikináus os primeiros que subiram a serra do Maracaju, pelo lado aliás mais íngreme e se estabeleceram na belíssima chapada que coroa aquela serra… (TAUNAY, 1948: 268)
Os Exoaladi, segundo Cardoso de Oliveira, teriam desaparecido por ocasião da Guerra do Paraguai. Os Terena compõem o grupo de maior expressão dentre os remanescentes dos antigos Guaná na atualidade; os Layana vivem dispersos em aldeias Terena dos municípios de Aquidauana e Miranda; os Kinikinau, além de viverem em algumas aldeias Terena da região do Pantanal de Mato Grosso do Sul, concentram-se na aldeia São João. Contudo, os Kinikinau teriam ficado “ocultos” em meio ao grupo majoritário Terena e entre o final do século XIX e o início do século XX, foram pouco mencionados em livros e documentos. Tornou-se “natural” referir-se a eles como um subgrupo Terena, especialmente após a destruição do último aldeamento reconhecidamente pertencente ao grupo, localizado próximo à região do rio Miranda. A questão do desaparecimento dos Kinikinau, ainda no século XX, remonta aos trabalhos do antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira, em seus clássicos estudos sobre os Terena:

dentre as inúmeras tribos ou subtribos a desaparecerem ainda no presente século [XX], podemos apontar os Kinikináu (Guaná) e os Ofaié-Xavante. Os primeiros mantinham ainda uma aldeia, junto ao rio Agaxi, de onde se dispersaram, expulsos de suas terras por um civilizado que as teria comprado do Estado do Mato Grosso; seus remanescentes são encontrados hoje em algumas aldeias Terena. (CARDOSO DE OLIVEIRA, 1976: 27).

Assim os Kinikinau registram na memória o que teria ocorrido com o grupo após o término do conflito platino:

Após a Guerra do Paraguai, os índios Terena e Kinikinawa, além de outros, sofreram sérias perseguições por parte de fazendeiros, posseiros e invasores. O grupo dos Kinikinawa foi disperso, mas algumas famílias estabeleceram-se em Agaxi, próximo à Miranda. Os invasores de terra novamente os perseguiram, obrigando-os a procurar outro lugar. Ficaram sabendo que no local chamado Corvelo havia terras devolutas e para lá partiram. Nesse tempo, já estavam recebendo orientações de um chefe do SPI, conhecido como Nicolau Horta Barbosa. Chegando ao Corvelo, fizeram suas casas, a terra era boa, então começaram a plantar, mas não demorou muito para aparecer um suposto “dono das terras”.
O grupo comunicou o fato ao SPI e este os orientou a procurar o Campo dos Kadiwéu. Foi o que os homens fizeram. No dia 13 de junho de 1940, duas famílias chegaram à  aldeia  São  João,  que  na  época  era

desabitada. O Coronel Nicolau os acompanhou e determinou onde deveriam construir suas casas. O transporte que usavam era o carretão, uma espécie de carro de boi com rodas e eixo de madeira. O grupo que chegou à aldeia era de aproximadamente 12 pessoas.


A memória de Leôncio Anastácio, o mais antigo Kinikinau da aldeia São João ainda vivo nos dias de hoje e tratado com reverência pelos indígenas como “pioneiro”, reteve a significativa imagem do meio de transporte utilizado por ele e pelos outros Kinikinau para chegarem à aldeia. Tratava-se do carretão, puxado por dois bois e através do qual toda a bagagem de uma família era transportada para onde quer que fosse. Ainda de acordo com a tradição oral do grupo, os Kinikinau vivem no Território Indígena Kadiwéu há pouco mais de 60 anos, tendo se reunido após a dispersão dos aldeados ocorrida na primeira metade do século XX, quando teriam sido expulsos do território tradicional, localizado na região entre os rios Miranda e Aquidauana e denominado Wakaxu. Documentos do antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) consultados pelo pesquisador Giovani José da Silva pouco revelaram sobre a presença dos Kinikinau na “Reserva Indígena Kadiwéu” no decorrer do século XX. O que se sabe, ao certo, é que na década de 1940 foi criado pelo SPI o Posto Indígena de Alfabetização e Tratamento São João do Aquidavão, vinculado à Inspetoria Regional 5. Com os Kadiwéu, os Kinikinau teriam estabelecido relações intersocietárias em que os primeiros, essencialmente caçadores e coletores, exigiam dos últimos, agricultores por excelência, tributos em troca da proteção e da permanência em seu território. A esse respeito, o líder Martinho da Silva Kadiwéu, em depoimento ao antropólogo Jaime Garcia Siqueira Jr. comentou que

[...] na época que abriu o SPI [...] então eles acharam um meio de que botasse algumas, digamos assim, alguns colonizadores, no caso dos Terenas, Sabe? Os Terenas começaram, os patrícios usaram os Terenas para poder ser assim um ponto de auxílio para eles. Eles plantaram, os Terenas toda vida gosta de agricultura, eles plantam mandioca, arroz, feijão, milho, isso aí, eles não eram, não são verdadeiros donos, mas cuidavam para os patrícios Kadiwéu, enquanto eles vigiavam essa enorme área que nós temos aqui. [...] Esse São João, aldeia de São João, já vem há muito tempo essa história aí. Esses Terenas, vem sendo aliado com os Kadiwéu, sempre vivendo subordinado, os Kinikinau subordinados aos Kadiwéu. Não podia fugir porque eles tinham uma tarefa a fazer com ele, então trouxeram eles. Eles escolheram um lugar como de agricultura e coisa e tal. O único, o recurso mais próximo que eles mesmo acharam de tocar um recurso de agricultura, no caso, uma lavourinha que eles fazem, é aqui para o lado do PI São João, porque fica perto de Três Morros, que existia primeiro bolixo que eles se mantinha daquele lugar. Então eles, os patrícios disseram: – Então vocês ficam aqui [...] aqui é o canto da nossa área, aqui qualquer coisa, qualquer irregularidade que vocês vê, procuram nos localizar, nos avisar o que está acontecendo. Agora vocês têm obrigação, planta milho, arroz, feijão, tudo o que se dá aqui vocês planta, e nós vamos comercializar entre nós mesmos, lá pelo rio Paraguai, por aí, tudo o que nós conseguir nós entrega aqui, nós não temos como negociar [...] Nós vamos negociando, isso aí, vocês ficam como vigilante nosso, como ponto de segurança nosso. Aí toparam, onde existe o PI São João. (SIQUEIRA JR, 1993: 130-131) 

O próprio líder Kadiwéu, como se percebe pelo trecho do depoimento reproduzido acima, confunde os Kinikinau com os Terena, não fazendo clara distinção entre uns e outros. Essa confusão pode ter sido gerada pela proximidade lingüística dos dois grupos, o que de fato os tornou “iguais” aos olhos de outros. As relações entre os Kinikinau e os Kadiwéu, no entanto, nem sempre foram amistosas:
Como vivemos em terra alheia, sempre ameaçados por algumas famílias de outra etnia, não queremos mais esta vida sem liberdade. Por isso, pedimos a volta para o nosso território de origem Kinikinau, onde possamos viver em liberdade, garantindo um futuro mais feliz para as nossas crianças, para que não esqueçamos nossas tradições e que todos nos reconheçam e nos respeitem como povo Kinikinau. (SEMINÁRIO POVOS RESISTENTES, 2004.)
 

A FÊNIX DESPERTADA: OS KINIKINAU E A EDUCAÇÃO ESCOLAR

Os indígenas Kinikinau ou Kinikinawa vivem atualmente espalhados por algumas aldeias da porção ocidental do Estado de Mato Grosso do Sul. A maior concentração do grupo habita a aldeia São João, ao Sudeste do Território Indígena Kadiwéu. Em 1998, o Censo Kadiwéu, realizado pela Prefeitura de Porto Murtinho, revelou a presença de 58 indígenas que se autodeclararam Kinikinau em um universo de 195 índios recenseados naquela aldeia, dentre os quais Terena, Kadiwéu e Guarani-Kaiowá. Vivem, sobretudo, da atividade agrícola, falam correntemente uma língua provavelmente filiada à família lingüística Aruak, assim como os Terena e os Paresi, e também se comunicam em Língua Portuguesa. A autodenominação do grupo é Koinukunoen que em seu idioma quer dizer “índio”, em contraposição a uma identidade Terena impingida a eles através dos tempos. Há notícias de membros desse grupo residindo também em aldeias dos Terena, nos municípios de Miranda (Cachoeirinha e Lalima) e Nioaque (Brejão).

Durante muito tempo lhes foi negada pelo próprio órgão indigenista, primeiramente o SPI e depois a FUNAI, a possibilidade de se identificarem como Kinikinau, pois eram obrigados pelos chefes de posto a se registrarem como Terena. Em 1997, a Prefeitura de Porto Murtinho, através da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esportes, iniciou um trabalho de Educação Escolar no Território Indígena Kadiwéu com a perspectiva da implantação de escolas que atendessem as necessidades de cada aldeia: Bodoquena, Barro Preto, Campina, São João e Tomázia. Na aldeia São João foram realizadas discussões sobre a escola que os índios desejavam, verificando-se que a maioria rejeitava um tratamento igual àquele oferecido aos Kadiwéu. Isso nos levou a pensar, então, em uma escola que atendesse a índios Terena, o que também foi rejeitado pelo grupo. Evidente que esse fato causou muita estranheza e, ainda que timidamente, os Kinikinau começaram a revelar a partir desse episódio uma identidade étnica distinta.
Durante as reuniões verificamos que identificar-se como Terena representou, durante muito tempo, uma das estratégias utilizadas pelo grupo Kinikinau para sobreviver a toda sorte de perseguições a que foi submetido. Segundo o professor Inácio Roberto, os Kinikinau lutam até hoje para provar que existem e que têm direito à terra, educação e identidade:

assim como outros índios, nós também estamos alcançando o direito de dar aulas para nosso povo. Eu espero que o estudo signifique a valorização cultural e mais respeito para os Kinikinaus. Por isso, deixo uma mensagem para outros índios que também estão em sala de aula: é preciso persistência, muita luta e quando ficar muito, muito difícil continuar, pense nos seus filhos, nos seus netos e no seu povo! Nas nossas palavras, hinga ûti koinukunoen hainiye ûti xo mêun (REVISTA NOVA ESCOLA, 2004).
Três indígenas Kinikinau fizeram parte do Curso de Formação de Professores Kadiwéu e Kinikinau oferecido pela Secretaria Municipal de Educação, Esporte e Lazer de Porto Murtinho, entre os anos de 2002 e 2004. Dois deles concluíram com êxito o referido curso: Inácio Roberto e Rosaldo de Albuquerque Souza. Em 2003, o professor Inácio Roberto participou de pelo menos dois eventos de repercussão nacional em que manifestou a existência de seu grupo. Nesses encontros, o professor indígena e ex-policial militar falou sobre a difícil luta que os Kinikinau têm travado para serem conhecidos e oficialmente reconhecidos pelo Estado brasileiro. Nem mesmo os estudos acadêmicos têm se preocupado com os Kinikinau em Mato Grosso do Sul, pois, até o momento, não há estudos lingüísticos e aqueles de caráter histórico e antropológico os consideram como extintos por não possuírem um território físico demarcado.
Entendemos o território como meio básico de produção, mas também sustentáculo da identidade étnica, como sugere o etnólogo João Pacheco de Oliveira. Acreditamos, dessa forma, que os Kinikinau possuem um território simbólico, através do qual reconstruíram suas vidas longe das terras tradicionalmente ocupadas pelo grupo. Entretanto, sem território físico próprio, com a língua em processo de revitalização e distantes do  interesse  acadêmico,  os Kinikinau  só puderam se apoiar na Educação Escolar para atingir seus objetivos. Acreditam que somente uma escola que esteja a serviço do próprio grupo poderá se constituir como um dos caminhos para a consecução desses objetivos. Se o mundo dos não-índios parece lhes dar as costas, faz-se necessário, então, que a própria comunidade Kinikinau estabeleça pontes para diminuir cada vez mais as fronteiras constituídas entre esse grupo e o entorno.

Se o espaço escolar pode ser entendido teoricamente como “fronteira”, como sugere a antropóloga Antonella Tassinari, pretendemos que o Curso de Formação de Professores Kadiwéu e Kinikinau tenha se constituído em um verdadeiro espaço de fronteiras, quer simbólicas e/ ou identitárias. Seja nas aulas de Antropologia Cultural, História ou Geografia, os Kinikinau, mais do que os próprios Kadiwéu, demonstraram o desejo de conhecer, debater e compreender questões relacionadas à etnicidade, à identidade étnica e ao território. Partimos, assim, do pressuposto teórico que a identidade étnica se constrói por contraste. É o que nos ensina o antropólogo Carlos Rodrigues Brandão ao afirmar que
[...] as identidades são representações inevitavelmente marcadas pelo confronto com o outro; [...]. Identidades são mais do que isso, não apenas o produto inevitável da oposição por contraste, mas o próprio reconhecimento social da diferença. (BRANDÃO, 1986: 42; itálicos no original).

Assim, os Kinikinau presentes ao curso puderam perceber que, apesar de estarem na mesma categoria relacional que os Kadiwéu, ou seja, de “índios”, não eram os mesmos indígenas que os remanescentes Mbayá-Guaikuru. Embora tenham sido, durante muito tempo, confundidos com os Terena, os Kinikinau sabem-se diferentes destes e de quaisquer outros membros de sociedades indígenas. As armas de que dispõem para lutar pelo reconhecimento étnico e territorial serão escolhidas pelo próprio grupo e poderão envolver a manutenção do uso da língua Kinikinau e a atualização de tradições há tempos em desuso.
Dentre as discussões oferecidas pelo Curso de Formação de Professores podemos destacar as que versaram sobre identidade étnica e territorialidade propostas em conjunto pelos professores das disciplinas de Antropologia Cultural, Geografia e História. Os alunos Kadiwéu fazem parte de um grupo que possui o usufruto de mais de 500 mil hectares de terras demarcadas e homologadas desde a década de 1980. São conhecidos e reconhecidos pela inconfundível cerâmica produzida pelas mulheres e pelo passado de “índios cavaleiros”. Sobre eles existe ampla bibliografia de cunho histórico e antropológico e mais recentemente alguns trabalhos em áreas diversas do conhecimento. Com os alunos Kinikinau a situação era praticamente oposta: além de não possuírem terras demarcadas, não são reconhecidos pelo órgão indigenista oficial brasileiro e os poucos livros que se referem a eles os tratam como um grupo do passado e, portanto, extinto. O caráter contrastivo da noção de identidade étnica pareceu-nos adequado, uma vez que se encontravam no mesmo curso, atores sociais com diferentes perspectivas de suas próprias identidades. Por um lado, os Kadiwéu altivos e conscientes de sua importância no cenário étnico sul-mato-grossense e brasileiro; por outro, os Kinikinau, em menor número, mas muito determinados a se fazerem ver e serem respeitados enquanto grupo étnico, o que implica, entre outras coisas, o reconhecimento por parte do Estado brasileiro.

A busca por esse reconhecimento oficial tem suma importância para os Kinikinau nos dias de hoje em sua luta na reconquista de territórios tradicionais. O caminho para se chegar a estes, passa pela identificação da sociedade envolvente, uma vez que o processo de auto-identificação já se encontra em andamento. “Não há sociedade sem espaço para lhe servir de suporte” (CLAVAL, 2001: 207), afirma o geógrafo Paul Claval, e somente essa condição legitima a necessidade de terras exigida pelo grupo. Uma outra situação está latente entre os dois grupos indígenas que coabitam a “Reserva Kadiwéu”: os Kadiwéu permitem que os Kinikinau permaneçam em suas terras e, no entanto, rejeitam quaisquer propostas de alteração de limites da aldeia São João, de modo que se amplie a área da mesma. Os Kinikinau estão preocupados com o futuro, pois já não são apenas 12 pessoas (como afirma o ancião Leôncio Anastácio quando da chegada dos “pioneiros”) e a população acompanhará o ritmo crescente observado em muitos outros grupos indígenas, necessitando de mais terras para sobreviver. Entretanto, o desejo que se torna imperioso entre eles é o de regressarem para casa, um “lugar Kinikinau” onde possam reconstruir a memória do grupo, institucionalizando o espaço através dos ritos e dos mitos, assegurando, dessa forma, a continuidade da presença histórica Kinikinau.
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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______________. Memórias do Visconde de Taunay. São Paulo: IPE, 1948.
VASCONCELOS, C. A. de. A questão indígena na província de Mato Grosso: conflito, trama e continuidade. Campo Grande: UFMS, 1999.

Kinikinau: Valorizando a História e a Pedagogia de um Povo

Por SHIRLEY VILHALVA – Surda / Professora
Técnica do CAS/SED/MS

ANEXO 4

Seminário “Povo Kinikinau: Persistindo a Resistência”
Bonito – MS, 16 a 18 de junho de 2004

Kinikinau: Valorizando a História e a Pedagogia de um Povo

Por SHIRLEY VILHALVA – Surda / Professora
Técnica do CAS/SED/MS
E-mail: svilhalva@yahoo.com.br

O Alfabeto Manual fez presente no Seminário, veja a FOTO de professores da Escola Municipal Indígena Ejiwajegi – Extensão Aquidabã / 2004


VILHALVA, SHIRLEY é Surda e Pedagoga que atua como Técnica em Assuntos Educacionais no CAS/MS. Também, é Mestranda em Lingüística da UFSC e, atualmente, encontra-se realizando pesquisa sobre índios Surdos e faz parte da Diretoria da FENEIS.

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