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Edição 02 - 02

SENTIDOS DO OUTRO LADO: Percepção da Mensagem de Notícias do Telejornal Local de TV Aberta “Jornal do 10” por Sujeitos Surdos

SENSES FROM THE OTHER SIDE: Deaf subjects’ perception from the news’ message of the local open TV newscast program called “Jornal do 10”
Por SAULO XAVIER DE SOUZA

RESUMO:
Neste artigo, apresento o resumo de uma pesquisa que pretendeu identificar como um grupo de sujeitos surdos da cidade de Fortaleza-CE, Brasil, percebe o conteúdo das mensagens de notícias do telejornal local de TV aberta Jornal do 10, quando há e quando não há ferramentas inclusivas.  O uso da pesquisa de campo com observação direta, da entrevista coletiva e da aplicação de questionários perceptuais acerca das mensagens dos conteúdos exibidos no telejornal constituiu o método.  Os resultados foram divididos em dois grupos: grupo 01, com as percepções dos sujeitos em relação ao conteúdo exibido sem interpretação para a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e grupo 02, com relatos perceptuais dos surdos sobre os produtos exibidos com tradução simultânea em Libras.  Algumas categorias emergiram durante a pesquisa de campo, sendo que, no grupo 01, verifiquei que apareceram: confabulação, divergência dos discursos, descontentamento e raiva diante da falta de acessibilidade comunicacional, informação truncada.  No grupo 02, surgiram: concatenação das idéias dentro dos discursos dos sujeitos, indignação, exatidão da informação, unicidade do discurso e maior propriedade nas opiniões.  Então, concluí que, entender os sentidos do outro lado, é uma ferramenta que podemos usar, enquanto jornalistas, para compreender o alcance da mensagem dos textos produzidos, humanizando nosso trabalho e enxergando o outro, o telespectador de nossos produtos, para evitar que a TV apareça destruída ou inacessível aos múltiplos públicos que fazem parte da audiência.

PALAVRAS-CHAVES: Surdos, percepção, notícias, telejornalismo.
 

ABSTRACT:
on this article, I present the summary of a research that had intended to identify how a group of deaf subjects from the city of Fortaleza-CE-Brazil, perceives the contents of the messages from the news of the local open TV newscast program called Jornal do 10, when there are and are not inclusive tools. The usage of the in-field survey with direct observation, collective interview and application of perceptual questionnaires about the messages from the exhibited contents on the newscast TV program quoted, used to be the method. The results were divided in two groups: group 01, with the subjects’ perceptions related to the content shown without the interpretation for the Brazilian Signs Language (Libras) and group 02, with perceptual reports from the deaf ones about the products exhibited with simultaneous translation in Libras. Some categories had emerged during the in-field survey, so that, in group 01, I’ve verified that appeared:confabulation, discourses divergence, displeasure and angry in front of the absence of communicational accessibility and fragmented information. In other hand, in group 02 appeared: concatenation of the ideas into the subjects’ discourses, indignation, information’s exactness, unity of the discourses and more property in the opinions. In conclusion, I found that understanding the senses from the other side is an important tool that, as journalists, we can use to understand the reach of the message from our texts produced, humanizing our daily work and seeing the other, the televiewers of our products, to avoid that TV appears destroyed and inaccessible to multiple publics that are constituent of the audience.
KEYWORDS: deaf ones, perception, news, telejournalism.
 

 

1. INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, como fruto do relacionamento oriundo da presença da TV na sociedade, todos temos visto acontecer uma segmentação de vários públicos do outro lado da “tela”, na audiência, nos quais estão inclusos os sujeitos surdos que, até possuem televisão, mas, na maioria das vezes, não conseguem obter informações importantes (ZOVICO, 2003).  Logo, é importante investigar, por exemplo, como sujeitos surdos de Fortaleza / Brasil percebem aquilo que assistem em telejornais locais de TV aberta.  Segundo BRETAS in CAMPELLO e CALDEIRA et al (2005: 97) “o termo TV aberta designa genericamente as emissoras cujos sinais não são codificados, tornando-os assim disponíveis para o público em geral”.
 

Não se sabe exatamente o número de sujeitos surdos residentes na cidade de Fortaleza, mas pode-se calculá-lo aproximadamente.  Segundo informações do Escritório Regional no Ceará da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis-CE), em 2005, o número total de deficientes de Fortaleza correspondia a, aproximadamente, 30 mil habitantes.  Calculando-se que os surdos devem corresponder a 0,5% dessa população, o número de indivíduos com surdez nessa cidade, naquela época, girava em torno de quatro a cinco mil habitantes.
 

Alternativas inclusivas dessa audiência, como o uso de legendas ocultas, também conhecidas por closed caption e a participação de Intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) têm acontecido de maneira isolada, como em alguns programas da Rede Globo e do SBT.  No caso brasileiro, os intérpretes são profissionais ouvintes bilíngües que dominam o Português na modalidade oral e a Língua Brasileira de Sinais – Libras (ROSA, 2003).  Nesta pesquisa, escolhi para efeito de análise a alternativa inclusiva sócio-audiovisual da tradução simultânea em Línguas de Sinais (LS) através de um intérprete.
 

Na capital cearense, as pessoas surdas tiveram uma oportunidade de experimentar a inclusão audiovisual, mediante a emissora local do SBT – TV Jangadeiro – que permitiu aparticipação de intérpretes em um de seus programas.  Esse episódio aconteceu durante o Debate Político da TV Jangadeiro entre os candidatos à Prefeitura de Fortaleza, durante o 2º Turno das Eleições de 2004, em que foi permitida a participação de intérpretes profissionais de Língua Brasileira de Sinais (Libras), proporcionando a inclusão audiovisual da audiência surda e configurando um marco significativo na história política do Estado.
 

Nesse contexto, esta pesquisa objetivou:
Verificar como sujeitos surdos percebem a mensagem de notícias do telejornal local de TV aberta “Jornal do 10”, quando há e quando não há uma ferramenta específica de inclusão audiovisual;
Analisar as relações entre Língua Portuguesa (modalidade oral), Libras e linguagem audiovisual, de forma que seja esclarecida a maneira como é veiculado o conteúdo da mensagem da informação jornalística pela TV às pessoas surdas;

Investigar como a cultura e a identidade surdas configuram a percepção, por parte dos sujeitos surdos, da mensagem do conteúdo da informação jornalística veiculada nas notícias de TV com vistas a caracterizar a singularidade desse segmento da audiência televisiva;

E ainda, observar o comportamento dos sujeitos surdos diante da exibição de notícias em telejornais locais a fim de apreender características desse grupo social da audiência televisiva.
Diante disso, chamei este trabalho de “Sentidos do Outro Lado” por acreditar que os sujeitos surdos telespectadores também são alvo dos sentidos midiáticos e podem produzir significados a partir do que vêem nos telejornais.
 

Esclareço que esse artigo é um resumo da pesquisa que desenvolvi para a conclusão do meu curso de graduação em Jornalismo pela Universidade de Fortaleza-CE (Unifor), a qual realizei entre Agosto e Dezembro de 2005 e traz uma abordagem cujo foco está na análise das percepções dos sujeitos surdos entrevistados e não meramente nas minhas impressões pessoais enquanto pesquisador e tradutor-intérprete de Língua de Sinais.
 

 

2. REFLEXÕES TEÓRICAS
2.1. O Telejornalismo e a segmentação de públicos

“Vi, sim! Deu na TV.”  Muitas vezes, só acreditamos que uma notícia é real, que um fato aconteceu de verdade, quando acompanhamos pela televisão informações sobre o assunto.
 

A televisão ocupa um lugar privilegiado dentro dos meios de comunicação de massa (MCM).  Esse privilégio acontece em vários países do mundo e, mesmo dividindo a atenção do público com o rádio, o jornal, o cinema e a internet, a TV permanece sendo escolhida como um dos meios mais fiéis de acesso à informação.  Segundo REZENDE (2000: 23), “no caso brasileiro, a TV (…) desfruta de um prestígio tão considerável que assume a condição de única via de acesso às notícias e ao entretenimento para grande parte da população”.

O conteúdo jornalístico das notícias veiculadas pela televisão propõe aos telespectadores uma escrita audiovisual da realidade.  Os MCM são responsáveis por transformar os fatos e outros eventos que se sucedem em notícias (SILVA, 1998).  Esses meios transmitem significados que devem ser acessíveis ao público e, para isso, a mídia televisiva aborda fatos reais e formata-os de um modo tal, que fiquem adequados à linguagem que usa para informar os públicos.
 

A televisão aberta brasileira possui cerca de seis grandes redes e outras quatro menores, todas oferecendo um tipo específico de produto ou informação.  Assim, considerando que, em média, dispomos de três produtos telejornalísticos em cada uma das grandes emissoras, teríamos cerca de 25 telejornais sendo oferecidos aos telespectadores, diariamente.  Ao observar os canais da TV aberta, observo que, em algumas redes, há mais produtos telejornalísticos que em outras, pois, ao compararmos as redes Rede TV, Record, SBT, TV Cultura e Rede Globo, vemos que é essa última, a Rede Globo, a que mais apresenta telejornais.  Incluindo a realidade local de Fortaleza, essa emissora oferece, todos os dias, sete exemplos desses produtos telejornalísticos.
 

Mas, norteada pela ditadura rígida do lucro, a televisão, bem como os programas telejornalísticos e a linguagem empregada pela TV, têm de se adaptar, na forma e no conteúdo, ao perfil do público a que se dirige.  Tudo isso, seguindo uma lógica em que, uma maior audiência, resulta em um faturamento publicitário com mais lucros e gera uma rentabilidade mais efetiva às redes de televisão.  Esse modelo termina sacrificando o viés cidadão do telespectador e acaba exaltando o lado consumidor, que é, por fim, a base de toda a operação mercadológica em torno da mídia audiovisual (REZENDE, 2000).
 

Uma empresa de televisão funciona como qualquer outra instituição de caráter comercial, tendo como pauta, a maximização dos lucros.  Seus principais produtos são as mensagens, textos e uma variedade de conteúdos apresentados de forma audiovisual, mas, a TV só expõe ao público o que lhe interessa.
 

Segundo essa ótica mercantilista, os textos encontrados nos discursos televisivos funcionam como mercadorias que, como qualquer produto pronto para ser vendido, disputam um lugar no mercado.  É a necessidade de aceitação do público e de audiência que sustenta a obtenção dos patrocínios, que são os financiadores das atividades geradoras dos produtos televisivos, dentre os quais, encontram-se inseridos os telejornalísticos (DUARTE, 2004).
 

Além disso, quando se considera a produção telejornalística no Brasil, noto que é aí, na veia jornalística do meio televisivo, que se encontra a faceta responsável pela tentativa de alcançar, ao mesmo tempo, os vários milhões de brasileiros com informações plurais em tempo real.  Dessa forma, cria-se um espaço favorável para o desenvolvimento de uma relação de proximidade entre o conteúdo informativo veiculado, os profissionais responsáveis pela comunicação dessas mensagens e o próprio público que vai estar do outro lado da tela consumindo o material produzido.  Nesse espaço, compreendo que cabe ao público decidir se aceita ou rejeita a proposta informacional telejornalística que está sendo veiculada.
 

Em virtude da mentalidade mercadológica da mídia televisiva, a aproximação entre textos, mensagens, profissionais e públicos termina sendo intermediada pela tendência de generalizar tudo em prol do maior alcance em menor tempo.  De acordo com essa idéia, segue-se a concepção de que, mais de 150 milhões de pessoas, estariam, realmente, assistindo à mesma notícia, em todo o Brasil, ao mesmo tempo, não importa onde, nem quando, nem como.  Esse compromisso de informar os brasileiros em tempo real termina por interferir na produção do conteúdo midiático veiculado na TV, gerando uma informação muitas vezes superficial e fincada no “espetáculo”.
 

Enquanto mídia, a TV oferece discursos à sociedade por meio de seus produtos, materializando-os em textos, os quais constituem seus próprios processos comunicativos. Seguir a fórmula em que há uma combinação de tons que suscitam reações emotivas, com uma produção telejornalística que aproveita bem imagens atrativas – geralmente sem real significância jornalística – conectando tudo isso a um conjunto de fatos noticiados, é um perigo à comunicação da mensagem televisual.
 

Porém, para analisar a relação entre notícia, audiência e mensagens telejornalísticas, deve-se atentar para outros elementos que influenciam a percepção do conteúdo dessa última por parte dos telespectadores (GUEDES, 1998: 110).  Além disso, a língua materna do sujeito telespectador, a qual, enquanto modelo exemplar de código, atua como direcionadora do raciocínio cognitivo da percepção da mensagem das notícias telejornalísticas, também deve ser considerada como elemento pertencente a esse sistema simbólico (ECO, 2002).
 

Além da linguagem propriamente dita, a capacidade perceptual da mensagem telejornalística é influenciada pelo segmento social da audiência, pela diversidade de grupos sociais presentes na grande massa de audiência da televisão, inclusive na capital cearense.  Atualmente, tem acontecido um processo de fragmentação considerável dos sujeitos das camadas de audiência televisivas, como bem sustenta BARBERO e REY (2001) ao declararem que programas criam audiências-modelo, que são muito mais do que espectadores fortuitos, pois, trata-se de grupos ou de tribos identificáveis, tanto por suas preferências midiáticas, como por suas decisões vitais.
 

BARBERO e REY (2001) sugerem ainda que essa renovação dos públicos é seguida de modificações cognitivas, as quais, podem ser compreendidas como sendo as diferentes maneiras de se interpretar e de se apropriar de um fato televisual e da respectiva localização contextual no cotidiano dos próprios públicos.  Além disso, o autor sugere que o aumento da produção de mensagens televisivas também pode estar acompanhado da elevação do número de formas de relacionamento dos públicos com esses conteúdos. Esses autores acreditam que as modificações cognitivas favorecem as diferentes interpretações das mensagens televisuais, suscitando verdadeiros exercícios do ver.
 

No entanto, “a interpretação do discurso produzido em condições particulares de enunciação (contextos específicos) é uma forma privilegiada de conhecer o sujeito” (GUEDES, 1998:111). Qualquer pesquisa sobre a percepção da mensagem de notícias pode, portanto, levar a conhecer melhor as necessidades específicas do público formado por sujeitos especiais, tais como os surdos, e mostrar, na prática, como é grande o alcance daquilo que é jornalisticamente informado pela televisão à audiência.
 

A fragmentação da TV termina por suscitar um movimento de outras mediações que giram em torno da recepção televisiva, as quais, são percebidas como as diferentes instâncias culturais em que os públicos dessas mídias produzem e se apropriam dos significados e sentidos do processo comunicativo (BARBERO e REY, 2001).  Processo esse que é particular e está diretamente ligado ao fato da televisão possuir uma mensagem própria.  Para DUARTE (2004) esse processo se define como sendo a comunicação humana mediada pela mídia televisão e, enquanto tal, possui uma complexidade no tocante às instâncias de produção e recepção com os sujeitos envolvidos, aos meios técnicos de produção, circulação e consumo de suas mensagens, bem como, no tocante às múltiplas linguagens que expressam o conteúdo televisivo, dentre outros aspectos.
 

Assim, é possível para um grupo social ter a liberdade de se apropriar dos significados e dos sentidos dos processos comunicativos (BARBERO e REY, 2001).  Também é possível haver inclusão social na mídia televisiva, pois, no campo da sociedade inclusiva, o principal enfoque é a diversidade humana, o que significa, no exemplo específico dos sujeitos surdos, ultrapassar desafios, vencendo-os, mesmo que sejam permanentes e apareçam de surpresa (ROSA, 2003).
 

Diante disso, acredito que já é possível encontrar abordagens dentro da própria comunicação que apreciam a multiplicidade de culturas como um fator essencial para o surgimento de novas tendências – como o jornalismo comunitário participativo, a redação de notícias com linguagens mais coloquiais, os textos, hipertextos, dentre outros discursos comunicativos da Internet – e até mesmo, para o amadurecimento social da prática telejornalística.
 

2.2. O mundo das linguagens no discurso telejornalístico
Ao se tratar de telejornais, é importante considerar as linguagens que estão presentes nos discursos telejornalísticos.  A esse respeito nos deparamos com várias vertentes ou abordagens.  Uma delas, por exemplo, envolve a soberania da imagem sobre as palavras, em que, geralmente, encontramos profissionais da mídia televisiva concordando com a idéia do provérbio chinês que afirma que uma imagem vale muito mais que mil palavras.  Nessa perspectiva, tratando-se de notícias telejornalísticas, há sempre uma tentativa de unir à imagem uma trilha sonora adequada juntamente com um texto que traduza exatamente aquilo que está sendo transmitido de modo visual. Tudo isso da maneira mais curta e direta possível.  De outro lado, há um enfoque sobre linguagens em que não há soberania de nenhuma das duas, pois, palavra e imagem, seguem juntas em prol da melhor comunicação do fato ao telespectador, selando assim, uma espécie de parceria midiática informativa (REZENDE, 2000).
 

Parece não ser interessante assumir uma postura de extremos, visto que nem é só a imagem que expõe o fato, nem é apenas o texto que emite a informação telejornalística, nem é unicamente o som que comunica os acontecimentos.  Pelo contrário, a combinação de cada elemento que pode ser utilizado para se comunicar uma notícia é o que realmente atua como aglutinador dos mecanismos de transmissão dos conteúdos jornalísticos.
 

Dessa forma, entendo que o pensamento minimalista que sombreia as produções jornalísticas daqueles que trabalham em TV termina por desencadear um empobrecimento da apuração completa dos fatos.  Esse processo começa desde o deadline (prazo final) típico da mídia televisiva.  Na maioria das vezes o profissional de telejornalismo tem um grande desafio cirúrgico nas mãos, pois, diante de um grande acontecimento, ele tem que filtrar toda a avalanche de informações que chega até ele em um curto espaço de tempo.
 

Após essa “filtração”, ele começa a indicar a captura de imagens, sons, fazer a redação do texto e se preparar para a gravação da passagem, do OFF e de uma proposta de “cabeça da matéria”.  Gravação da passagem é o momento em que o repórter de TV faz a leitura de um texto tendo sua própria imagem exibida no vídeo e isso faz uma ligação entre o início e o término do conteúdo do produto telejornalístico que está sendo exibido.
 

De acordo com BARBEIRO e LIMA (2002: 195), gravação do OFF consiste em “gravar o texto de uma reportagem na fita magnética, sobre o qual, posteriormente, serão inscritas imagens relativas àquela reportagem”.  Já a proposta de cabeça da matéria se define como sendo a redação textual que é “lida pelo apresentador e dá o gancho da matéria” (BARBEIRO e LIMA, 2002: 193).  Durante todo esse processo a informação é picotada de uma forma tal que a notícia chega a ser repassada de um modo tão enxuto que quase não suscita uma reflexão crítica no telespectador.
 

É desse procedimento que vejo surgir as notícias-espetáculo que protagonizam o estilo show de telejornalismo, em que os fatos são anunciados tais como trailers de um filme sobre acontecimentos cotidianos da sociedade. “Como a maioria dos jornais brasileiros, a televisão embarcou no “espírito hollywoodiano” proposto pelos norte-americanos…” (ZANCHETTA, 2004: 116).  PATERNOSTRO (1999) ressalta que, sempre que o jornalista for escrever para a TV, ele deve lembrar que vai estar contando uma história para alguém, como se estivesse conversando com essa pessoa.  É para ela que vai transmitir suas informações.  Com essa idéia na cabeça, sgundo essa autora, fica mais fácil escrever um texto que dever ser assimilado, instantaneamente, por milhões de telespectadores.
 

As notícias telejornalísticas são, muitas vezes, governadas pelo pensamento: usar linguagem coloquial para obter uma percepção mais rápida por parte do telespectador. Essa prática que “enxuga” o conteúdo dos textos jornalísticos de TV, geralmente, é influenciada pela pressão de ter de escrever e enunciar um único texto que seja absorvido por mais de 150 milhões de pessoas ao mesmo tempo em todo o país.  Afinal, a informação, mesmo sendo gravada – como no caso das reportagens, dos stand ups, dos teasers e da escalada, dentre outros itens dos telejornais – é transmitida ao vivo e precisa ser absorvida da melhor maneira possível por uma audiência tão grande.
 

É relevante ressaltar o cuidado com as estratégias técnicas no instante de se produzir um texto noticioso telejornalístico, pois há uma disputa pacífica entre palavra e imagem durante a veiculação de um telejornal.  Linguagens verbal e não-verbal se encontram, concomitantemente, durante a exibição das notícias de TV.  Acredito que esse encontro aconteça, visto que, em algumas reportagens, depara-se mais com a presença de linguagens visuais, não verbais, artísticas, estéticas, poéticas… que com a de grandes blocos de textos lidos em OFF pelo narrador – repórter, apresentador ou âncora.
 

Atualmente, manuais de telejornalismo defendem a prática de deixar a imagem falar por si, de fazer de tudo para formatar e editar uma reportagem com uma seqüência lógica de imagens que, sem texto, sejam absolutamente compreensíveis.  Para PATERNOSTRO (1999), quando existe uma imagem forte de um acontecimento, essa leva vantagem sobre as palavras e é suficiente para transmitir, ao mesmo tempo, informação e emoção.
 

Paradoxalmente, do mesmo modo, os mesmos manuais defendem que o repórter, ou qualquer outro profissional que trabalha com redação de textos para a TV, deve ter todo um cuidado técnico durante a escrita, com o intuito de sempre lembrar que o texto deve ser rapidamente compreendido e apreendido pelo telespectador, bem como, deve estar fielmente casado com as imagens exibidas na notícia, lembrando da premissa que versa que a imagem naturalmente faz parte da TV e, em telejornalismo, precisamos casar essa imagem com a informação (PATERNOSTRO, 1999).
 

Isso me remete ao fato concreto de que existem várias técnicas que podem ser utilizadas para incrementar os textos e até mesmo as linguagens que emanam das notícias televisivas, como por exemplo: escrever o texto levando em consideração que deve ser entendido por vários milhares de telespectadores ao mesmo tempo, ler em voz alta o texto que está sendo produzido no momento da redação do mesmo para checar a sonorização e a leitura desse último, usar palavras que emanam um grau discreto de coloquialismo no texto da notícia, dentre outras ferramentas que visam aproximar o telespectador das notícias telejornalísticas. (PATERNOSTRO, 1999).
 

No caso da linguagem verbal, os profissionais são incentivados a fazerem o uso de frases curtas, claras, objetivas, com palavras simples escritas na ordem direta, assim como são estimulados a evitarem o uso de cacófatos, de ambigüidades, de figuras de linguagem arriscadas, de estrangeirismos, de clichês, dentre outros exemplos.  Esses recursos estimulam os profissionais a produzirem textos cada vez mais claros e práticos para o entendimento do telespectador.
 

No que diz respeito à linguagem não-verbal, os profissionais são, muitas vezes, orientados ou levados a procurarem captar imagens que traduzam aquilo que está sendo visto na cena, no lugar da ocorrência do fato, como também, são incentivados a olhar de modo panorâmico, humano, atento, a fim de perceber detalhes que componham a informação visual de uma maneira que seja possível compreender o fato até mesmo sem nenhum texto.  Escolher todo esse material não é uma tarefa fácil.
 

Por exemplo, em uma situação de guerra, em geral, o repórter é enviado para o local do conflito e deve fazer a produção de conteúdo telejornalístico que englobe tudo o que está acontecendo em aproximadamente 1 minuto e 30 segundos de duração (1’30’’).  Nesse caso, que imagens devem ser escolhidas? Corpos estirados no chão, bombas explodindo, tanques andando, soldados em combate, pessoas desesperadas correndo? Que texto deve ser lido em OFF? Um texto humanizado ou um texto não tendencioso para revelar mais objetividade? Que áudio deve ilustrar o conteúdo informado? Ambiente ou se deve escolher uma trilha sonora que mais se aproxima com a realidade do fato noticiado? São difíceis escolhas a serem feitas pelo profissional de TV e isso exige muito esforço, habilidade e poder de síntese.  O objetivo final é levar à construção de notícias que exprimem a realidade dos acontecimentos para quem está assistindo em um tempo curtíssimo.
 

A partir desse exemplo, questiono como está sendo percebida a mensagem de notícias telejornalísticas por uma audiência específica formada por pessoas que não escutam. Será que, para elas, as imagens conseguem informar tudo o que está acontecendo na realidade local e global? Como se apresentam os telejornais a esse público específico de sujeitos surdos quando há e quando não há a disponibilidade dos conteúdos em Libras?
 

Diante disso, faço um convite à reflexão a partir do exemplo abaixo:
Você liga a TV e começa a assistir ao telejornal.  Mas, no meio do programa, o telefone toca e você precisa atender.  Para ouvir o telefone, você tem que deixar a televisão sem som.  Depois de atender a ligação, você não religa logo o som da TV porque quer experimentar como é assistir a uma notícia sem som algum.  Daí, você assiste àquela seqüência linear de imagens e, depois, liga o som para ouvir a nota pé do apresentador.
 

O que acontece? Muitas vezes, nós acreditamos que a reportagem estava falando de um assunto e, na verdade, falava de outro completamente diferente.
 

Por que será que isso ocorre?
ZANCHETTA (2004) propõe que um exercício simples como esse acima para mostrar o quanto as imagens televisivas são polissêmicas e necessitam de uma ancoragem verbal. Tal ancoragem, no exemplo dos surdos, é viabilizada por meio do código verbal espaço-visual das Línguas de Sinais.  Na verdade, as imagens televisuais contribuem muito pouco para a definição do assunto abordado na TV, dentro do telejornal.
 

Dessa forma, no caso dos sujeitos surdos, em que existem apenas 5,7 milhões diante dos aproximadamente 165 milhões de outros brasileiros ouvintes, como seria transmitida a informação telejornalística?  É possível transmitir conteúdos telejornalísticos por meio de um código espaço-visual sem afetar a linguagem não-verbal própria das notícias de TV a um público específico que, só em Fortaleza, gira em torno de cinco a sete mil pessoas?
 

Ainda é incipiente o uso de alternativas de inclusão nos telejornais brasileiros.  Além disso, quando se fala de inclusão, remete-se rapidamente ao fato de já estarem disponíveis as legendas ocultas (closed caption) em vários telejornais da programação jornalística da TV brasileira.  Diante disso, REZENDE (2000: 29) afirma que:
 

a despeito do inegável poder expressivo das imagens, a palavra se impõe como suporte imprescindível do visual. Não somente a palavra falada, para milhões de telespectadores, mas também, a palavra escrita para os deficientes auditivos que, por meio de um dispositivo técnico, closed caption, explica o que as imagens dos fatos noticiados na maioria das vezes não conseguem esclarecer, por elas mesmas.
 

Não quero defender aqui que a palavra é soberana em relação à imagem ou que a imagem é soberana em relação à palavra.  Mas, diante do exemplo, posso ver que as imagens ocupam, na televisão, primeiramente, um papel referencial e explicativo ligado ao conteúdo da linguagem verbal.  Às vezes informam pouco, servindo de ilustração ao verbal.  Apenas em alguns poucos casos, informam mais que a palavra (ZANCHETTA, 2004).
 

Quando um surdo se coloca diante da TV para assistir a um telejornal e se depara com a legenda de closed caption, ele está assistindo a exibição dos fatos telejornalísticos em um código lingüístico diferente daquele que normalmente utiliza.  Alguns surdos fluentes tanto em Libras como em Língua Portuguesa comentam que as legendas auxiliam para mantê-los atentos diante da tela porque a informação está “correndo” diante de seus olhos.  Tudo bem, isso é fato e até há movimentos como o “Legenda Nacional – legenda para quem não ouve, mas se emociona” que apóia e defende a inclusão desse recurso.
 

Porém, acredito que, a grande maioria dos surdos do nosso País, pode até entender algumas informações, mas, pelo fato de que há vários graus de fluência em Libras e Língua Portuguesa entre esses que fazem parte dessa camada segmentada da audiência televisiva, não se pode garantir que a percepção da mensagem dos fatos jornalísticos a ele exibidos será integral, mesmo com o suporte da linguagem não-verbal presente nas imagens exibidas nas notícias.  Além disso, trago aqui neste artigo, uma pequena amostra das contribuições de outros pesquisadores brasileiros que já têm identificado a ocorrência de uma defasagem da percepção plena da mensagem dos conteúdos telejornalísticos diante da exibição de códigos distintos (escrito X audiovisual) concomitantemente.  Por isso, no intuito de investigar sobre algo ainda não explorado amplamente pelo mercado telejornalístico, busquei experimentar uma análise cujo foco estaria na percepção da mensagem de notícias com e sem a presença da Libras.
 

2.3. A percepção de notícias de TV por públicos surdos
Em linhas gerais, é possível definir a percepção como sendo o contato que o organismo mantém com o ambiente ao redor, com o estado interno, bem como com o movimento.
 

No entanto, essa não se define apenas pelo contato com os objetos, mas também, pelo contato com os seus próprios estados internos, dentre outros aspectos.  Além disso, também não é algo inerente aos seres humanos, pelo contrário, os animais, desde aqueles com constituição biológica mais simples até aqueles mais evoluídos, precisam estar conectados com eventos que os cercam para garantir a adaptação e a sobrevivência no ambiente (DAY, 1972).

Nossos olhos e ouvidos podem capturar informações oriundas de fontes remotas.  Esses dois órgãos sensoriais funcionam como radares, pois permitem fazer contato perceptual com objetos situados a uma distância inalcançável, estendem-nos perceptualmente no mundo para além do contato de nossos outros receptores sensoriais – mãos e nariz – que têm um limite geográfico de atuação.  Tanto a visão como a audição, em geral, abrem verdadeiras portas de um mundo que está longe do alcance de nossas mãos (SEKULER e BLAKE, 1994).
 

Nesse contexto, segundo PIMENTA (apud Salles et al, 2004: 39), a surdez deve ser reconhecida como apenas mais um aspecto das infinitas possibilidades da diversidade humana, pois, ser surdo não é melhor ou pior do que ser ouvinte: é apenas diferente. Ainda nesse raciocínio, STRANADOVÁ (2000) defende que, enquanto um dano orgânico, a surdez é algo imutável, mas não traz incômodo algum por si mesma.  Segundo a autora, o que incomoda mesmo são as conseqüências dessa “deficiência” que se configuram em desvantagens, diferentes em várias situações.  Algumas são mínimas, outras são importantes.  Para ela, é impossível remover a deficiência, mas a inferioridade sim.
 

SACKS (2002: 15) afirma que “somos notavelmente ignorantes a respeito da surdez (…) Ignorantes e indiferentes”.  SÁ (2002) nos instiga quando afirma que qualquer pessoa que tenha conhecimento da comunidade surda sabe que a definição de surdez pelos surdos passa muito mais pela identidade grupal que por uma característica física que os faz “menos” ou “menores” que os ouvintes. Já para SALLES et al (2004), acabar com o paradigma da deficiência é observar as restrições dos dois grupos: surdos e ouvintes.
 

QUADROS (2002: 10) define os surdos como aqueles indivíduos que se identificam enquanto surdos. Segundo a autora, surdo é o sujeito que apreende o mundo por meio de experiências visuais e tem o direito e a possibilidade de apropriar-se da língua brasileira de sinais e da língua portuguesa, de modo a propiciar seu pleno desenvolvimento e garantir o trânsito em diferentes contextos sociais e culturais.
 

STRNADOVÁ (2000) dispõe de um comentário particular em torno do que é ser surdo quando diz que para pessoas como ela, que não escutam desde a infância, responder àpergunta – “como é ser surdo?” – é tão difícil como ter uma resposta para a pergunta como é viver.  A surdez, segundo a autora, já se tornou parte dela mesma, pois acredita que, assim como os ouvintes têm adversidades: “o surdo passa pelos mesmos problemas, acrescidos de dificuldades específicas. (…) Isso se repete sempre e em diferentes relações” (STRNADOVÁ, 2000: 36).
 

DANESI (2001: 169) defende a idéia de que o sujeito surdo não deve ser visto como uma pessoa deficiente.  Pelo contrário, segundo ela, ele deve ser visto como “membro de uma comunidade lingüística diferente, com hábitos, valores próprios e com uma cultura diferente da comunidade ouvinte”. A autora defende que essa atitude de reconhecer as potencialidades dos surdos de acordo com idéias sociais e antropológicas influencia no crescimento da auto-estima do surdo, além de despertar nele a consciência de sua própria condição de ser bilíngüe e bicultural, pertencendo a duas comunidades.
 

SEKULER e BLAKE (1994) acrescentam que nos sentiríamos vulneráveis se nos fosse negado o acesso às informações captadas pelos sentidos sensoriais.  Portanto, não é nada surpreendente o fato de que a cegueira e a surdez – que consistem na perda dos sentidos distantes – sejam consideradas devastadoras para o ser humano.
 

É exatamente essa sensação de insegurança que STRNADOVÁ (2000: 41-2) traz à tona quando ela, que é surda, declara “de vez em quando, sinto falta do controle do ambiente no qual me encontro, através da audição.  Não para complementar a realidade dos acontecimentos, mas para minha orientação e sensação de segurança(…)”.
 

De acordo com essa autora, em algumas situações específicas a surdez é uma diferença que coloca os sujeitos em uma condição de inferioridade e isso requer dos surdos e surdas uma atenção redobrada em relação ao ambiente em que vivem, bem como, em relação às ações ou eventos pelos quais passam nesse mesmo ambiente.
 

A percepção dos sujeitos surdos é bastante acurada, visto que, em alguns aspectos perceptuais, esses sujeitos desenvolvem mais receptores ligados à visão e a outros mecanismos sensoriais.  Entre os que são usuários das línguas de sinais como ferramenta de comunicação e expressão há uma espécie de fenômeno compensatório, em que há a predominância de uma orientação visual do mundo, bem como, o aumento da velocidade de reação a estímulos visuais (SACKS, 2002).
 

É na visão que está amparado o nosso senso de direção, a nossa noção de espaço, profundidade, distâncias, entre outras características físicas.  Quando falamos sobre percepção visual, percebemos que há uma grande variedade de campos perceptuais em torno desse sentido sensorial, pois, cores, movimentos, formas e profundidade são alguns elementos ligados à percepção visual.
 

No caso dos surdos, os campos perceptuais de movimentos, formas e cores são detalhes que se destacam.  Normalmente, os sujeitos surdos são conhecidos por serem “pessoas visuais”, ou seja, por serem surdos, parecem dispor de uma maior acuidade visual.
 

WRIGHT (apud SACKS, 2002: 113) ilustra bem essa realidade quando afirma:
eu não percebo mais do que antes, porém percebo de um modo diferente. [...] Por exemplo, assim como alguém que espera impacientemente um amigo terminar uma conversa telefônica com outra pessoa sabe quando ela está prestes a terminar pelas palavras ditas e pela entonação da voz, assim também um surdo (…) deduz o momento em que se fazem as despedidas ou em que se formou a intenção de devolver o fone ao gancho. Ele nota a mudança da mão que segura o instrumento, a mudança de postura, a cabeça afastando-se um milímetro do receptor, um ligeiro mexer dos pés e aquela alteração de expressão que indica uma decisão tomada. Isolado das pistas auditivas, ele aprende a ler os mais tênues indícios visuais.
 

Os sujeitos surdos, na maioria dos casos, são consideravelmente prejudicados pelo fato de não conseguirem estar completamente ligados no ritmo do fluxo do discurso social que os cerca.  Segundo SEKULER e BLAKE (1994), a análise perceptual do mundo passa a ser substancialmente menor quando o indivíduo perde a audição.
 

Particularmente, acredito que os sujeitos surdos não são menos capazes de perceber os eventos que acontecem no mundo ao redor deles só porque não escutam.  O que endosso como algo coerente é o fato de que a limitação físico-sensorial causada pela surdez, na maioria das vezes, coloca essas pessoas em situações de inferioridade que são confundidas com deficiências cognitivas (STRNADOVÁ, 2000).

Diante disso, em uma pesquisa que fiz com surdos da Escola na qual trabalhava como Intérprete Profissional de Língua de Sinais durante o mês de abril de 2005 sobre a percepção de quatro notícias do Jornal Nacional, notei que, quando as notícias são transmitidas com tradução simultânea para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), há uma percepção completamente diferente daquela que ocorre quando esse recurso não é disponibilizado.
 

Com a presença da tradução em Libras, as notícias foram percebidas melhor pelos sujeitos, revelando opiniões concatenadas com o assunto da notícia.  Já as notícias que não tiveram acompanhamento pela LS, tiveram sua apreensão afetada pela concepção pessoal de que cada sujeito possuía sobre a idéia do fato que estava sendo exibido visualmente.  Por exemplo, uma notícia sobre explosão próxima a um gasoduto da Petrobrás na Bolívia foi associada a uma guerra que estaria acontecendo naquele País.
 

Essa percepção acerca desse fato aconteceu assim, truncada, por não ter sido viabilizada a informação na primeira língua dos sujeitos surdos telespectadores, e ainda, pelo fato dos sujeitos investigados não serem fluentes o bastante em Língua Portuguesa para acompanharem as legendas, bem como, não simpatizarem com esse mesme recurso, e ainda pelo fato da seqüência de imagens não ter sido suficiente para informar, visualmente, o que tinha acontecido naquele país, visto que, foram mostradas uma imagem em plano parado do gasoduto com duração de apenas alguns segundos e, logo em seguida, uma imagem de um mapa da América do Sul destacando com caracteres textuais o país Bolívia e a capital La Paz, a qual permaneceu no ar durante o restante do tempo de exibição da notícia.
 

No caso dos surdos que assistiram a notícia e que, por exemplo, não tiveram a alternativa da Libras, restou uma percepção superficial do fato, em que apenas sabiam que algo havia acontecido na Bolívia, mas não sabiam precisar o fato com clareza, porque não tiveram acesso ao conteúdo verbal da notícia.

Assim, a linguagem audiovisual das informações telejornalísticas possui percepções diferenciadas dependendo do público e da forma de emissão.  Ou seja, se assistirmos a uma reportagem telejornalística apenas ouvindo o áudio do conteúdo informado porque no momento da exibição não pudemos acompanhar a TV, mas apenas pudemos ouví-la, vamos ter uma percepção diferente daquela pessoa que ouviu e viu a mesma notícia.
 

A presença da televisão na sociedade e sua importância atual torna necessário o entendimento de que também se encontram do outro lado da “telinha”, na audiência, sujeitos surdos.  ZOVICO, surdo congênito paulista declara que “muitos surdos possuem televisão, mas o maior problema é que não conseguem obter informações importantes (…)” (Zovico, 2003:22).
 

O telespectador surdo, muitas vezes, não consegue apreender simultaneamente o visual das imagens e o texto das legendas de closed caption.  Isso acontece com a maioria dos surdos brasileiros, que não têm vivências diárias profundas com a modalidade escrita da Língua Portuguesa, visto que a Libras é o código lingüístico mais utilizado por eles (SANTIAGO, 2004).
 

No que concerne a mensagem televisiva, ECO (2002) acredita que a individuação do código e dos léxicos adequados é favorecida pelo contexto comunicativo em que é emitida a mensagem.  Ou seja, a aplicação da Libras como código lingüístico primordial de acesso aos surdos desde o processo comunicativo de emissão da notícia telejornalística, torna muito mais ágil e direta a percepção da mensagem por parte desses sujeitos.
 

Os manuais sobre TV afirmam que “toda vez que um telespectador ouve uma palavra ou uma frase, ela é processada e conectada – associada – a algo já conhecido. É ligada ou relacionada a alguma coisa que já está na memória dele” (PATERNOSTRO, 1999, p.78). Outros autores afirmam que “as imagens podem levar à síntese informativa, sobretudo se amparadas no texto verbal, mas também, contribuem para a dispersão das informações, dado o fluxo contínuo de cenas, recortadas e justapostas umas às outras”. (ZANCHETTA, 2004, p.113).
 

Como a maioria dos telespectadores brasileiros é formada por ouvintes, é provável que existam algumas barreiras comunicativas e lingüísticas que impedem os sujeitos surdos de terem uma percepção completa dos fatos veiculados na TV.
 

A falta de acessibilidade, visto que, as notícias são exibidas apenas em uma língua, o desconhecimento lingüístico da maioria dos ouvintes dos parâmetros ligados à Libras, o desconhecimento por parte dos surdos das regras ligadas à Língua Portuguesa, dentre outros exemplos, podem se constituir como fatores que dificultam as relações entre ouvintes e surdos.
 

Os intérpretes de línguas de sinais podem, a princípio, ser agentes importantes para atenuar essas dificuldades. Segundo ROSA e DALLAN (apud ROSA, 2003: 237) o intérprete é uma pessoa ouvinte bilíngüe que domina o português na modalidade oral e a Língua de Sinais.  Para QUADROS (2002) eles, além de ter esse duplo domínio lingüístico são aquelas pessoas que interpretam uma dada língua de sinais para outra língua, ou dessa outra língua para uma determinada língua de sinais.
 

Para a surda STRNADOVÁ (2000: 70) os intérpretes não são apenas os tradutores. Representam a ponte entre dois “mundos diferentes”, entre o mundo dos surdos e o mundo dos ouvintes.  Essa autora descreve bem o trabalho desses profissionais: intenso, simultâneo e bastante exaustivo, porém gratificante.  Segundo ela, o intérprete avalia rapidamente toda a frase, prioriza o que o cliente quer dizer, muda a ordem das palavras obedecendo à gramática da língua oral e, às vezes, interpreta um sinal que não pode ser traduzido por uma palavra apenas.  Tudo isso, instantaneamente e, enquanto fala, presta atenção nos sinais seguintes (STRNADOVÁ, 2000).
 

QUADROS (2002) expressa que o intérprete está totalmente envolvido na interação comunicativa, tanto no aspecto social como no aspecto cultural, dos sujeitos surdos com o mundo ouvinte.  Historicamente, o surgimento das atividades de interpretação se deu a partir de atividades voluntárias que foram sendo valorizadas enquanto atividade profissional na medida em que os surdos foram conquistando a sua cidadania.  A participação dos surdos nas relações sociais incentivou e suscita a profissionalização dos que atuam como intérpretes de línguas de sinais.
 

Para STRNADOVÁ (2000) a maioria dos surdos não tem idéia sobre a importância e a dificuldade do trabalho de interpretação. Segundo ela, os surdos desconhecedores da língua oral e, conseqüentemente, da modalidade escrita, dificilmente conseguiriam ser entendidos pelos outros sem o auxílio do intérprete de Língua de Sinais (LS).
 

O intérprete desempenha o papel de mediador das relações sociais entre ouvintes e surdos, atenuando as barreiras comunicativas e lingüísticas entre esses dois grupos e atuando como construtor de pontes entre esses dois mundos culturalmente diferentes. Além disso, o trabalho desses profissionais pode ser enquadrado como um modelo de ferramenta inclusiva sócio-audiovisual.
 

Portanto, reafirmo ao final dessas reflexões teóricas na interface do Telejornalismo, da Surdez, da Libras e da ferramentas de acessibilidade comunicacional, que toda essa pesquisa sobre a qual pormenorizo neste artigo, foi fundamentada em uma análise a partir das percepções dos surdos quanto às notícias exibidas com e sem o recurso da interpretação simultânea em Língua de Sinais (LS).  Dessa forma, reitero que não pretendo descartar aqui os outros recursos de acessibilidade já existentes, mas tenho o intuito de hierarquizar a interpretação simultânea em LS como meu recorte fundamental desta análise, cujo método esclareço a seguir.
 

3. MÉTODO
3.1. Os sujeitos participantes

A escolha dos sujeitos foi influenciada pelos resultados obtidos em projetos anteriores à pesquisa os quais já apresentei aqui e na minha experiência profissional como Intérprete Profissional de Língua de Sinais.
 

Com isso, busquei dentro do universo de alunos surdos devidamente matriculados no ensino médio do turno da noite da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Prof. Renato Braga (EEFMRB), formar um grupo de sujeitos que, voluntariamente, estivessem dispostos a colaborar com a pesquisa.  Pelo fato de trabalhar com tradução-interpretação na escola pública mencionada, houve uma maior facilidade para consultar os indivíduos. Inicialmente, tinha um interesse de formar um grupo de dez pessoas com diferentes graus de fluência na Libras, a ser dividido em dois subgrupos os quais, respectivamente, passariam por testes perceptuais diferenciados.  No entanto, algumas adversidades ligadas a aspectos pessoais dos indivíduos surdos, assim como, outras ligadas a assuntos voltados às atividades curriculares e extracurriculares da própria Escola, tais como semana cultural, comemoração do Dia do Professor, entre outras, fizeram com que a escolha final do grupo fosse seriamente afetada.
 

Por fim, consegui formar um grupo de cinco sujeitos surdos que concordaram em participar da pesquisa.  Esse mesmo foi formado por três homens e duas mulheres, sendo que, na época, todos alunos estavam devidamente matriculados na Escola.  Dos três homens, um estudava na turma especial da 2ª série do Ensino Médio no período noturno (HS1) e dois eram alunos de uma das turmas especiais da 1ª série noturna do Ensino Médio (HS2 e HS3).  Entre as mulheres, uma era aluna da mesma turma especial da 1ª série do Ensino Médio em que estudavam HS2 e HS3 e a outra estudava na mesma sala de HS1.  Do mesmo modo que os homens, as mulheres foram categorizadas em mulher surda um (MS1), que era esposa de HS3 e mulher surda dois (MS2), que era colega de turma de HS1.
 

O grau de conhecimento diferenciado da Libras apresentado pelos sujeitos da pesquisa foi um fator preponderante para a escolha.  Nessa perspectiva, tive a intenção de reunir surdos com total fluência nessa língua com outros medianamente fluentes e alguns com um nível básico de fluência.  Mediante a experiência profissional com a Libras, verifiquei que essa diferença de graus de fluência surge naturalmente entre os indivíduos surdos, visto que alguns têm mais contato com a Libras que outros, gerando mais versatilidade comunicativa em uns e em outros menos.
 

3.2. O material da pesquisa
Uma outra etapa importante da pesquisa foi a escolha do material a ser utilizado.  Foram escolhidas notícias do “Jornal do 10” – um telejornal local, exibido em rede de TV aberta pela TV Verdes Mares, que é a afiliada da Rede Globo na capital do Ceará, cujo foco editorial está principalmente em notícias da cidade de Fortaleza e de outras localidades cearenses e cuja apresentadora era, até então, a jornalista Cíntia Lima.  Escolhi o “Jornal do 10” por ser o que, dentro de seu horário de exibição, é mais conhecido pelo grupo de surdos que foi formado para a pesquisa.  Para efeito de análise, foi escolhida a edição do dia 11/08/05, exibida das 18h50min às 19h10min.
 

O “Jornal do 10” apresenta, em média, 20 minutos de duração, possui em torno de quatro intervalos – incluindo o tempo da vinheta de abertura do programa, além de estar organizado de uma maneira que, logo nos primeiros 10 minutos de telejornal, já é possível acompanhar todas as últimas notícias sobre Fortaleza e Estado que aconteceram naquele dia até aquela edição.  Esse programa também mescla a exibição de notícias quentes e frias durante o decorrer do programa, o que confere momentos de tensão e leveza em um curto espaço de tempo.
 

Na edição escolhida, foi veiculada uma notícia que causou um grande impacto na Capital no início do segundo semestre daquele ano: o assalto ao Banco Central de Fortaleza. Esse evento deixou a edição do “Jornal do 10” com um grande bloco quente completamente tomado pelas últimas notícias com dados sobre o assalto, com informações “ao vivo”, assim como, contou com blocos frios de notícias sobre temas variados.
 

Assim, o “Jornal do 10” escolhido foi exibido no dia da comemoração do Dia do Estudante, no Brasil.  Contou, além da escalada, com um grande primeiro bloco informativo sobre o assalto ao Banco Central de Fortaleza e com um segundo com notícias policiais, com acontecimentos da cidade, com notas-pé enunciadas pela apresentadora, além de notícias mais frias sobre o uso de cartões de crédito, sobre empréstimos consignados e uma notícia sobre uma tentativa de assalto seguida de morte que aconteceu em Fortaleza naquele dia.  O quarto bloco foi dedicado às últimas informações sobre o assalto ao Banco Central além das notícias de esporte.
 

3.3. A preparação do material
A primeira fase de preparação do material consistiu na gravação, na íntegra, da edição do jornal escolhida. Em seguida, foi feita a gravação, em estúdio, da interpretação simultânea de todo telejornal por parte de um intérprete profissional de Libras e uma edição não-linear dos conteúdos escolhidos e a composição com o que foi interpretado simultaneamente.
 

Uma cópia de todo o “Jornal do 10” foi exibida para o intérprete a fim de proporcionar uma aferição inicial do conteúdo.  Em seguida, em busca do equilíbrio cromático-visual da imagem do intérprete no vídeo, escolhi o fundo azul e posicionei o profissional dentro do estúdio.  Logo após, foi exibida novamente a fita com a cópia do telejornal e gravada a interpretação simultânea de todo o “Jornal do 10” do dia 11 de agosto de 2005.  Depois da gravação, o intérprete ordenou as notícias sinalizadas de acordo com a qualidade da sua interpretação.  Conjuntamente foram escolhidos os quatro momentos do jornal melhor interpretados e mais interessantes para os propósitos da pesquisa.
 

Foram escolhidas: a “escalada” – ou seja, o resumo rápido do que vai ser apresentado telejornal feito segundos antes de sua apresentação completa, a primeira notíc

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